Faltam exatas (mentira) seis horas para a sessão de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2, e eu tô aqui, acordada, oficialmente no meu penúltimo dia de férias em Londres, refletindo sobre duas coisas. A primeira é que é um absurdo que o cinema aqui perto do hotel tenha uma área VIP (que história é essa, gente? Área VIP pra quê? Vou ver o filme no colo do Rupert Grint, é isso?). A segunda, um pouco mais delicada, foi a que me levou a escrever esse post. Não é curioso que certos pensamentos pareçam sensacionais e intrincados quando estão guardadinhos a sete chaves no crânio, mas virem pieguice da braba quando são colocados para respirar?
Bom, vamos tentar mesmo assim.
Como se fosse ontem, eu lembro dos dias em que esperava (apavorada, é bom frisar) por esse dia. O dia em que o desfecho de uma das maiores paixões que eu já tive finalmente iria chegar, dessa vez sem conversa. Harry Potter acabou, fim de papo, vamos seguir com as nossas vidas, moçada. Já deu dessa história de varinhas, vassouras e vilões sem nariz. Vamos crescer.
Soa bem natural, se você analisar com uma certa frieza. Esse tipo de envolvimento maníaco com uma pá de livros e filmes não é lá exatamente o que a gente pode chamar de hábito saudável, né. Além disso, a própria vida tem jeitos de te colocar no caminho racional, seguro e não-fanático, te arranjando um trabalho, prioridades diferentes e bons amigos que nem conseguem pronunciar o nome Weasley com muita segurança. A vida testa os pottermaníacos.
Ok, a vida testa todo mundo, mas vocês me entenderam. São quatro da manhã aqui, poxa. Sejam legais.
O curioso é que, ainda que a vida tenha essas manhas todas de tornar você mais responsável e menos curioso em relação a criaturas mitológicas (mentira²), ela também tem o dom de transportar você para o passado como se você tivesse uma cabine policial dos anos 50 máquina do tempo no bolso. E não é preciso muita coisa, não: um texto ali, uma resenha aqui, uma entrevista com seu ruivo favorito acolá e pronto, lá vamos nós parar nos 13 anos pela segunda vez – como se a primeira não tivesse sido… ehr… adolescente o suficiente.
É difícil analisar e se distanciar de algo que faz parte da sua vida desde que você se entende por gente. Por mais que eu saiba que Harry Potter não esteve lá desde que eu nasci, eu sei que foi importante para mim e, bom, para todo mundo que estava por perto. Eu não era a única maluca pelo garoto de cicatriz na testa; ele também era assunto constante com as minhas amigas, que jogavam RPG durante a aula de matemática e frustravam os meus planos de ser uma Hermione trouxa (e se elas lerem isso, vão me matar =)); ele se tornou importante para a minha família, que me via cada vez mais curiosa pelo que acontecia em mundos distantes. De repente, todo mundo falava nisso. Isso – que acaba hoje – virou bestseller, best-tudo. Nunca se viu igual.
E agora, acaba.
A vida começa depois de Harry Potter, gente. Vai ser tudo novo, como já foi. Menos expectativa e criaturas mágicas, mais imitações e vampiros frouxos. Mas a gente sabe o quanto foi legal, especial e único.
Harry Potter foi o nosso Woodstock nerd e bonitinho. Bora lembrar dele e romantizar à beça essa época saltitante das nossas vidas. Foi uma honra participar dessa bagunça com vocês. =)
(Sentido textual: não trabalhamos.)