sóis e chuva

Sempre me considerei uma pessoa sortuda, mas nos últimos tempos isso andava realmente ridículo. Murphy pareceu decidido a tirar umas férias de mim: fiz amigos incríveis, comecei a sair (e me divertir) muito mais, emplaquei meu projeto de pesquisa sobre um escritor que amo, viajei e, para colocar a cereja em cima do bolo, eu apostei em um cavalo vencedor – literalmente. Um amigo me convenceu a ir em uma das maiores corridas de cavalo da Europa e pimba, lá fui eu apostar no corredor que tinha um nome bonitinho. Deu zebra: ele, que não estava listado nem entre os cinco favoritos, ganhou a competição. Meus amigos ficaram chocados quando fui retirar o prêmio.

E eu também.

Decidi que essa sorte toda não podia vir de graça. Quando estamos felizes, o mínimo que a gente pode fazer é tentar deixar todo mundo ao redor feliz também. Se a vida tá boa, acho que existe uma obrigação de replicar isso o quanto e da maneira que pudermos (e quando tá ruim… bom, fica pra outro post). Parece filosofia de boteco ou autoajuda – e talvez seja mesmo -, mas eu realmente acredito nisso. E quando eu estava no auge serelepe da minha felicidade, dia desses, por motivos que eu nem me lembro, decidi fazer uma coisa.

Não importa aonde você vá aqui em Liverpool, sempre vai ter um lugar tocando Here Comes The Sun. Pode ser até em versão putz-putz-da-balada, mas com certeza você vai ouvir. Tem pelo menos dois comerciais na televisão em que tocam essa música. No Cavern Club, sempre tem alguém pegando o violão e agitando as palminhas complicadas durante os versos sun, sun, sun, here it comes. É uma música-tema da cidade e dessa estação: primavera chegou e com ela meu amor. Juntou-se isso com os raios de sol cada vez mais saidinhos, a vontade de sair de casa, os quadros do Van Gogh que eu tinha visto há algumas semanas e pronto: comprei girassóis. Dezesseis, para ser mais exata.

 

Esperei crescerem. Vi as flores se esticando, abrindo as pétalas, acordando:

E quando estavam prontas, achei que estava na hora de deixá-las ganhar o mundo. Mais precisamente, as ruas de Kensington, o bairro onde moro aqui em Liverpool. Sendo completamente sincera, não é o lugar mais bonito da cidade: muitos dos projetos de regeneração se voltam justamente para essa área, por ser uma das mais prejudicadas pelo tempo e por maus tratos. Muito cinzenta, pouco conservada. Mas…

… combinou, no fim das contas. 🙂 O engraçado é que, depois de tantos dias ensolarados, fui escolher justamente uma quinta-feira chuvosa para soltar esses girassóis por aí.

Duas horas depois, não tinha mais nenhum! Apenas alguns bombons em retribuição. =)

domingo

domingo

bota o sol na sua mala (a minha é pequena) e vamos.
dá o braço, chama o músico, timbalada inglesa nas ruas de pedra
não esquece o cartão e o sapato bom de pisar lugares pela primeira vez
cuidado com a câmera na maré alta e o chão escorregadio
lancelotes, esquilos e vestidos
pra não esquecer jamais

hey John,

Sabe quando você disse para o Paul manter “the movement you need is on your shoulder” em Hey Jude? Ele achava que a frase era fraca, mas você bateu o pé e disse que era seu verso favorito em toda a música, totalmente aberto a diferentes interpretações. Mate, muito obrigada por isso. Você estava certo. Há tempos eu a entendia de uma forma diferente. Hoje, não. Hoje, ela diz exatamente o que eu preciso…

… to make it better.

(better better better better better AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH)

ps: há sete meses, sou a prova viva de que overdose de Beatles não é causa mortis pra ninguém. Nunca. Jamais. =)

mercadoria

Vendo lupa emocional.

Preço justo. Bastante utilizada e com dois ou três riscos nas laterais, mas em ótimo estado de conservação.

Aumenta em até seis vezes (6x) o significado de palavras ditas em brigas, festas e conversas corriqueiras. Também amplia memórias de caminhadas noturnas, risadas e olhadelas durante danças. Seu uso foi testado e aprovado em:

  • discussões de relacionamento
  • primeiros meses de namoro
  • flertes
  • primeiros encontros
  • leitura de mensagens de texto do objeto de afeição

Zoom garantido até dos menores detalhes de um relacionamento ou seu dinheiro de volta. Distorções de realidade, contudo, devem ocorrer.

ATENÇÃO: use moderadamente. A exposição prolongada ao produto pode causar tonturas, lágrimas e acessos de raiva.

Acompanha lanterna acoplada e duas pilhas AAA.

escolhas

no fim das contas, o processo de crescer se resume a ir em uma loja de livros com ótimos preços e…

– levar um clássico da literatura muito bem comentado, que todos os seus colegas de trabalho já leram e sempre mencionam em conversas regadas a citações bonitas e intelectuais;
– outro, que parece bastante útil para a sua dissertação;
– um último, cuja crítica do caderno literário aponta como “uma mistura entre Willy Wonka e Matrix”.

e vocês pensavam que era complicado. tsc, tsc.

les émotions d’aujourd hui

nunca escrevi uma carta de amor.

veja bem, já escrevi cartas. várias. e todas elas com amor contido, lhe garanto. mas não acredito em cartas de amor escritas por mim. não consigo, não consigo.

explico: tenho problemas com meus sentimentos. se eu fosse de metáforas, diria que meu coração mora em uma casa de espelhos e se enxerga distorcido a cada novo ângulo. gigante, anão, com uma testa imensa, olhos esbugalhados, rosto miúdo em relação ao resto. não conheço o que sinto, não me lembro, só vi em foto.

carta é atestado de que eu sou eu. tá lá minha letra, que muda a cada linha, tão lá as palavras que, na minha cabeça, faziam sentido naquela fração de instante. a carta de amor é um contrato assinado por mim, para sempre, sobre alguém. mas qual o poder das palavras? como se quebra um encanto que morreu?

eu gosto de discursos de amor e desamor. enormes, ditos ao vento, sem freio. monólogos e seus personagens; você, o alvo do meu afeto, ouviria calado o que eu tenho a dizer. e eu, nessa versão surreal, diria tudo o que não cabe no sulfite ou na linha pautada. quanta coisa bonita eu podia dizer, quantos momentos lembrar, minha-nossa!

e ao mesmo tempo, quantos absurdos nessas curtas sentenças. você, calado, é ideia estranha e sem lugar mesmo na casa de espelhos. eu, tagarela como almodóvar, sou caso de crise. de riso.

não somos assim. eu não sou mais quem escreveu aquela carta e você não é aquele cara que me olha com espanto. por favor! você ia me analisar, falar sobre você, fazer observações pertinentes, traçar paralelos. e eu ia rir, contradizer tudo, checar meus pés. não fomos feitos para ser estáticos e é assim que eu me sentiria: aprisionando nós dois num tempo-espaço morto. que pesadelo.

eu não te quero congelado num papel cheio de remorsos e letras finas. nem numa foto, nem numa lembrança, nem num espelho ou um calendário. eu quero você vivo, a cores, rindo e xingando, sendo chato ou a melhor companhia do mundo. e que meus sentimentos façam o mesmo: estiquem as pernas, tomem sol, desbotem, cresçam, dancem, mudem.

e eu quero que você interrompa meus monólogos de amor. sempre que quiser.

(ó, não me culpem por esses posts. tomem satisfações com a linda da Lari e peçam para ela escrever textos menos inspiradores. ou não, se vocês tiverem juízo :))

I know that someday soon the sun is gonna shine

Achei tão bonito.

(E nem é totalmente por causa do Paul.)

Há vários anos tentei aprender LIBRAS por conta própria, por causa de um conto que eu tinha imaginado. Nunca escrevi a história – e esqueci a maior parte dela, infelizmente -, mas lembro de uma ou outra coisinha da linguagem. Treinava escondido, como se estivesse fazendo algo errado. Cada bobeira que a gente pensa.

Fico me perguntando se a gente tem essa consciência da beleza da linguagem o tempo todo, ou se precisamos da Natalie Portman em preto e branco e ao som de Paul McCartney para refrescar a memória. Não sei mesmo.

Mas continua bonito.

[Abandonei o twitter por um tempo. Toda vez que quiser escrever alguma coisa, vou dar um pulo aqui e tentar articular a pensação em mais do que em 140 caracteres. Vou tentar isso por um mês, vamos ver no que é que dá. :)]

chutobalde

Decretei que hoje, sábado, entrei na reta final do meu curso (ainda que ele só termine, mesmo mesmo, em setembro). Há muito o que escrever e ainda mais o que ler, mas não tinha como fazer diferente. Uma mudança de postura se tornou necessária. Tou animada, ansiosa, desesperada, feliz pra caramba.

E se é pra fazer, eu vou fazer o meu melhor. E do meu jeito. Andei bastante preocupada em agradar aqui e ali, fazer escolhas relativamente impessoais, distorcer um bocadinho meu modo de enxergar a coisa. Mas sabe do que mais? Eu mudei. Oras.

Se é pra entrar de cabeça, que seja com a minha cabeça.