les émotions d’aujourd hui

nunca escrevi uma carta de amor.

veja bem, já escrevi cartas. várias. e todas elas com amor contido, lhe garanto. mas não acredito em cartas de amor escritas por mim. não consigo, não consigo.

explico: tenho problemas com meus sentimentos. se eu fosse de metáforas, diria que meu coração mora em uma casa de espelhos e se enxerga distorcido a cada novo ângulo. gigante, anão, com uma testa imensa, olhos esbugalhados, rosto miúdo em relação ao resto. não conheço o que sinto, não me lembro, só vi em foto.

carta é atestado de que eu sou eu. tá lá minha letra, que muda a cada linha, tão lá as palavras que, na minha cabeça, faziam sentido naquela fração de instante. a carta de amor é um contrato assinado por mim, para sempre, sobre alguém. mas qual o poder das palavras? como se quebra um encanto que morreu?

eu gosto de discursos de amor e desamor. enormes, ditos ao vento, sem freio. monólogos e seus personagens; você, o alvo do meu afeto, ouviria calado o que eu tenho a dizer. e eu, nessa versão surreal, diria tudo o que não cabe no sulfite ou na linha pautada. quanta coisa bonita eu podia dizer, quantos momentos lembrar, minha-nossa!

e ao mesmo tempo, quantos absurdos nessas curtas sentenças. você, calado, é ideia estranha e sem lugar mesmo na casa de espelhos. eu, tagarela como almodóvar, sou caso de crise. de riso.

não somos assim. eu não sou mais quem escreveu aquela carta e você não é aquele cara que me olha com espanto. por favor! você ia me analisar, falar sobre você, fazer observações pertinentes, traçar paralelos. e eu ia rir, contradizer tudo, checar meus pés. não fomos feitos para ser estáticos e é assim que eu me sentiria: aprisionando nós dois num tempo-espaço morto. que pesadelo.

eu não te quero congelado num papel cheio de remorsos e letras finas. nem numa foto, nem numa lembrança, nem num espelho ou um calendário. eu quero você vivo, a cores, rindo e xingando, sendo chato ou a melhor companhia do mundo. e que meus sentimentos façam o mesmo: estiquem as pernas, tomem sol, desbotem, cresçam, dancem, mudem.

e eu quero que você interrompa meus monólogos de amor. sempre que quiser.

(ó, não me culpem por esses posts. tomem satisfações com a linda da Lari e peçam para ela escrever textos menos inspiradores. ou não, se vocês tiverem juízo :))

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2 comentários a “les émotions d’aujourd hui

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