Quem diria

Não, não me vem falar que você não tem vivência emocional. Não me diga que você não tem experiência. Todo mundo tem. Mesmo que você não tenha ninguém, mesmo que você não seja o sucesso nas festinhas da faculdade, mesmo que… mesmo assim, meu filho, mesmo assim.

Você aprendeu. Imerso naqueles filmes feitos para arrastar centenas de solteiras para os cinemas; ouvindo músicas tristes de Paul McCartney com os dois fones de ouvido no volume máximo; atrás do livro de capa amarela, você sorriu triste e entendeu, meu bem. Você aprendeu sobre si mesmo.

E então, apressado, correu de sair por aí para aplicar as teorias. Amou tudo que tinha, queimou, freou na curva, meu filho. Você se pegou amando quem não te amava, esperneando, chutando o balde, ardendo. Molhando a garganta com mais frequência do que o normal.

Mas também, meu filho, você se torturava. Você imaginava aquela pessoa largada no chão, gargalhando de calça jeans e joelhos dobrados, e tinha orgulho. Você sentia ternura por desconhecidos. Chorava com qualquer filhote de porco-espinho, meu bem.

E foi então que você entendeu, querido, que nem todo amor serve pra cada aspecto da gente. O amor não é um shake emagrecedor, não é um milagre à venda na Polishop nem uma faca Guinzo. Nem todo amor vai te fazer bem, nem toda paixão vai derreter seu estômago e clarear sua mente. Mas todo, todo novo amor vai acrescentar uma lente no seu caleidoscópio mental. É uma nova faceta, meu bem, seja ela límpida ou rachada, brilhante ou opaca, de você mesmo. Dos outros. Desse mundo inteiro.

Então vá em frente. Cultive os absurdos. Sinta ternura pelos rostos desconhecidos que você tanto gosta, identifique-se com as músicas que você sempre quis que falassem diretamente a você. Aponte histórias na multidão. Tenha bons domingos.

Depois escreva o que você sempre quis escrever, meu filho, sobre essas coisas todas.

E publique.

(Paul McCartney faz muito mal às minhas 38 personalidades)

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3 comentários a “Quem diria

  1. “Chorava com qualquer filhote de porco-espinho, meu bem.” – Quer dizer que isso não é uma coisa só minha? Jurava que eu era especial porque em todo e qualquer momento de fossa me jogava em fotos de bebês porco-espinho! Nossa, me veio um vazio agora. Sou comum mesmo.

    O texto ficou lindo e eu realmente admiro a sabedoria das suas 39 personalidades, mas amar dói! E dóis muito, demais da conta, insuportavelmente. E a dor ensina a gente, mas, minha linda, tem dias que eu preferia ficar na ignorancia!

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