a verdadeira razão

Kiss me goodbye,
I’m defying gravity.

Esses dias me perguntaram (ró, como se eu estivesse andando na rua e fosse parada por centenas de rostos curiosos que imploram por uma opinião, daí escondi meu rosto dos flashes embaixo de um chapelão vermelho e desapareci na  multidão distraída sem deixar rastros. na real, foi uma amiga quem perguntou) porque eu resolvi fazer teatro e, pior, porque continuei nele. Na hora, pensei meio rápido e respondi, sem 100% de certeza, que gostava da sensação que eu tinha ao subir no palco e apresentar uma peça. A gente continuou conversando sobre isso e tal, mas voltei pra casa com pulgas atrás da orelha e macacos insatisfeitos no sótão. Oh, o belo reino animal que mora nas cacholas humanas.

A verdade é que eu não estava totalmente convencida dessa opinião, sabem? Claro que sabem. A gente passa por isso todos os dias e vai acatando respostas temporárias sobre nós mesmos porque é simples, né. Mó legal. Foi isso que eu fiz. Acatei. Deixei pra lá. Fui coçar os piolhos.

Foi então que tudo aconteceu.

(Ah, eu adoro pausas dramáticas. Vamos fazer mais uma.)

Eu jamais estava preparada para o que viria a seguir.

(Gente, juro, posso fazer isso o dia inteiro! Posso? Posso?)

A verdade caiu em minha cabeça como um raio.

(Tá, chega.)

Na verdade, foi uma música. Defying Gravity, canção original da peça Wicked, regravada pelos artistas do seriado Glee. Estava eu ouvindo uma ou outra coisa da trilha sonora da série – que eu ÃBO, sonho-de-vida é fazer musicais fierce pra televisão que nem esse – quando topo com essa música específica. Eu já tinha ouvido, mas na ocasião só achei bonita.

Agora o troço fazia total sentido, meu Deus.

Pense numa coisa que demanda muito esforço, muito mesmo, e mesmo assim você quer fazer. Você teima, teima, teima e nada arranca a ideia da sua cabeça, mesmo que você esteja brigando com todo mundo por causa disso. Isso, pra mim, era sinônimo de teatro. Sempre foi uma tarefa de Hércules garantir meu semestre seguinte na escola, mas eu teimei mesmo. Eu fiquei. Não arredei o pé. Em dezembro, apresentei minha última peça em um curso paralelo. Agora, só tenho o caminho profissionalizante esperando, caso tope fazer todos os dias, a sério. Ao todo, tô há cinco anos nessa de cursos paralelos e grupos desencontrados.

Mas descobri o que me trouxe até aqui, no meio dessa estrada esburacada e ilógica. Descobri porque fiquei no teatro todos esses anos e porque sinto esse comichão quando me passa pela cabeça a ideia de continuar os estudos e sair por aí fazendo peças, escrevendo roteiros e dirigindo ensaios.

É porque o teatro me fez – me faz – desafiar a gravidade todos esses anos. Sem querer fazer uma associação pobre, mas já fazendo, essa música está falando de mim. E de você.

Não fala de perseguir sonhos e estrelas, não – nada de culpar os inatingíveis. Fala do sincero, profundo e intenso sentimento de derrubar nossas próprias barreiras, cara. Torres de ametista que a gente levanta – ou aceita – sem grandes necessidades. Alguma necessidade sempre há, aquelas que nos dão argumentos que parecem indestrutíveis.

Essa música fala de fazer arte. Fala de fazer as coisas bem feitas e de maneira apaixonada – mesmo que seja necessário um novo esforço de Hércules para tanto. E fala de, num súbito e como se fosse natural, voar. Voar como se nada tivesse peso ou tudo fosse mais pesado que a gente. E não devia ser assim? Não devia?

Certo, antes que isso aqui fique mais neohippie que Carolinie Figueiredo, chuto o balde: vamos tentar desafiar a gravidade? Vamos? Por um dia, uma semana que seja? Vamos abolir esses pesos, vamos fazer teatro, vamos escolher algo significativo pra nossa vida e não vivê-la no ponto morto, como a gente sempre faz?

Sei lá. É só uma sugestão. Se eu demorar pra voltar aqui, desconfiem. Ou eu não cumpri nada disso… ou Carolinie Figueiredo me abduziu de vez.

(E aí a Cláu do futuro vai dar risada e falar “ok, sua neohippie idiota, você não precisava ter escrito tudo isso, mas até que pegou o espírito da coisa”. Espero eu.)

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2 comentários a “a verdadeira razão

  1. As melhores coisas são aquelas que demandam um certo esforço. Esforço alheio ou nosso mesmo.

    E LUZ LUZ LUZ, caminhos abertos, gravidades e…é, perdi o fio da meada :~

  2. Olha, eu nem sabia que era tanto tempo de teatro. Achei fodástico! Aconteceu alguma coisa comigo depois de entrar na facudade que até pensar me cansa, mas já tive muita vontade de tentar.

    Quero ver uma peça sua (oooook, eu fui umas das pessoas que foi pro show da Madonna na ultima vez, mas não vai acontecer de novo)

    Beijo

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