intencionalmente sem título I

Esses dias decidiram se encontrar. Amigos distantes. Marcaram várias vezes de sair, mas os caminhos dos dois não se cruzavam de jeito nenhum. Um dia, um deles insistiu. O outro topou, talvez desesperado por contato, uma lembrança.

Sairam para tomar um café, arejar, ver o mundo acontecendo. Comentaram sobre a Lady Gaga, pediram dois cardápios, riram das besteiras da juventude. Amenidades. Foi nesse momento que o silêncio, sem sobreaviso, agarrou as orelhas e gritou, gritou até furar o que havia lá dentro. Havia uma distância entre os dois que não existia antes.

Ele arriscou um olhar profundo que chegou nela como um torpedo. Ela percebeu mágoa, não entendeu. Ele suspirou e sorriu tão levemente que o sorriso reverberou como miragem. E pareceu, por instantes, que ele tinha cento e dez anos.

Os cafés chegaram. E Beck começou a tocar ao fundo.

Não havia mais qualquer sombra de sorriso. É ele quem fala.

– Você me esqueceu.

Verdade. Mais pura verdade. Ela gaguejou para ganhar tempo.

– Não é verdade.

Mentira.

– Mentira. Você não faz questão de mim. Não somos mais cúmplices. Você me abandonou sem qualquer remorso, nada. Nada.

– Não… não é isso, eu… a vida faz essas coisas com a gente. A vida distancia as pessoas…

– Distancia quem quer se distanciar. Você e eu éramos unha e carne quando você precisou de mim. Eu estava aqui. Eu sempre estive aqui. Mas agora você não precisa de mim. Você precisa só dos seus próprios pensamentos…

Enganá-lo seria deslealdade, ela pensou. Não precisavam disso, pelos velhos tempos. Ela suspirou.

– Era um esforço que eu fazia, falar com você. Um esforço semanal que eu desisti de cumprir. Abri mão. Eu…

– Então eu era um fardo?

– Não… não é isso. Você me ajudava a racionalizar as coisas, você me ajudava a pensar. E externar o que eu sentia, bem ou mal. Mas de certa forma… alguma coisa em mim mudou. Minhas dores não eram mais minhas, virou uma só, estranha, constante, perigosa, viva. E por um momento, eu quis ter essa dor. Eu quis isso, eu quis… que você não facilitasse a minha vida. Eu quis que você deixasse de ser meu salvador. Eu queria trilhar sozinha, sabe?

– …

– Mas aí eu descobri outras maneiras. Eu tentei me sabotar. Descobri que aquela dor era um peixe muito grande pra mim. Mas não queria apelar para o meu grande subterfúgio, que era você e eu mesma, meu ensimesmamento, né?, e fui atrás de… pessoas. Pessoas que me ajudaram a esquecer, passar, seguir. Mudar. Pessoas que me pegaram pela mão ou me deram choques de realidade. E o mais incrível é que elas também sempre estiveram lá. Nem todas, mas algumas sempre estiveram lá. E eu aprendi tanta coisa com elas. Tanta.

– Uau, eu… isso me parece… brilhante.

– E é. É mesmo. – Ela sorriu.

– Então me parece que eu não sou mais uma peça vital para o seu bom funcionamento.

– Acho que você nunca foi, querido. Mas acho que ambos pensávamos assim, né?

– Você está sendo cruel porque acha que vai fortalecer o meu caráter?

– Não, meu bem. Só estou querendo dizer que você é meu blog. Eu jamais deveria depender da sua existência para ser feliz. Você, por outro lado, demanda a minha presença. E cá estou eu de volta. Apenas porque gosto de você. Eu não preciso de você e não tenho obrigações com você. É disso que eu preciso. É só isso.

E é por isso que eu voltei.

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