Mão na consciência: o (nem-te-)conto

Não sei se todo mundo aqui (hm, três pessoas? :|) conhece a Ariela. Acho que não. Bom, sucede que eu, como você, você e até aquele ali atrás tirando caca do nariz (é, eu vi. Não adianta disfarçar não, querido!), tenho uma consciência, meu grilo falante particular. Sabem, ela não é muito desenvolvida, por assim dizer, mas costumava dar uns pitacos nos meus posts quando meu blog ainda morava na rua do Blogger, número zero. Por razões… eu diria misteriosas… ela embarcou rumo a uma ilha deserta, ainda no ano passado. Nunca mais a vi, até sentir um peso esquisito na minha costela agora há pouco, enquanto logava no WordPress pra postar.

E não é que, olhando por cima do ombro, lá estava ela? Empoleirada tal qual papagaio de pirata. Umas roupas maltrapilhas, o cabelo um atentado à segurança pública: armado como estava, parecia ter fugido da guerra. Os olhos grandes, o jeito meio Emília de falar. Eis Ariela, minha consciência de estimação, meu grilo falante sem cartola. Mas de All-Star, naturalmente.

– Você é uma grossa! – Berrou Ela, limpando a poeira das roupinhas e dando a volta por baixo do meu cabelo, alternando o peso entre os meus ombros. – Como você tem coragem de me deixar dentro de uma caixa por mais de… de…

– Alguns meses.

– Alguns meses! – Estava revoltadíssima, batendo os pés e tudo mais. Minha clavícula que o diga Sabe o que é isso?! Sabe o que é isso?? Olha o meu estado! – Ela olhou pra si mesma, os braços abertos, e girou no lugar, exibindo o vestido roído em vários pontos por traças imaginárias.

– Tem razão, você tá um caco – Comentei, querendo animá-la. Ariela me fuzilou com os olhos.

– E você não tá muito melhor não, tá! Não mesmo! A moda da sobrancelha grossa já passou, meu amor, ficou lá nos anos 80! E vai aonde, pálida desse jeito? Convenção dos Zumbis Albinos? Ou você morreu e esqueceu de me contar? – Ela deu risadinhas de vitória. Desgraçada.

– Bom, pelo menos eu não tenho o tamanho de um palito de fósforo. – Sorri. – E o que você andou fazendo? Cê tá pesadíssima! – Ignorei seu grito de horror/indignação e a coloquei em cima do monitor do PC. Meu ombro já ‘tava até meio torto. Stanislavski me mataria.

– Ah, minha filha, obviamente não é minha culpa! Quem anda com a consciência pesada é você! – Ralhou Elinha, ajeitando os cabelos RBDs rebeldes com toda a dignidade que lhe restava. – E não me pergunte onde eu estava, você sabe exatamente onde eu estava. – Ela tomou ar, pronta pra explodir a qualquer minuto.

– Numa caixa, ok, você já disse.

– Mas claro que você não iria me esconder em qualquer caixa – Berrou Ariela, gastando o oxigênio recém-adquirido -, VOCÊ TINHA QUE ME JOGAR NUMA DROGA DE CAIXA NO MEIO DE UMA ILHA DESERTA! Sabe quantas vezes eu gritei pro barbudo me tirar de lá? Sabe quanto tempo eu fiquei encarando aquela droga de bola com cara de gente?

– Ahn?

– E o barbudo falando com a bola! Sr. Watson, Sr. Watson! Mas que raios é Sr. Watson?! Eu gritava, gritava, “abre a droga da caixa, seu idiota”, e ele nada! Ele nunca abriu a caixa!

– Ai, tá bom, Ariela, então você conheceu o sr. Wilson. E por que você está aqui nesse exato momento? Como saiu da caixa?

– Sei lá eu. Só sei que um bonitão me levou pra fora da ilha e me trouxe até Nova York.

– Bonitão?

– Éé, qual era o nome dele? Sawdust, Sawler, Sailor…

– Sawyer?

– Pode ser. Enfim. Ele me pagou um lanche no McDonald’s e me enviou por Fedex até aqui.

– E por que você não ficou com ele lá?

– Ah, não sei, uma história enrolada.. acho que ele tinha que voltar pra ilha porque faltavam as gravações da última temporada. Ele era meio estranho, é. Mas olha, eu só não me escondi no bolso do Seeler porque tinha que voltar e te dizer uma coisa.

– Ah, é? O quê? – Achei graça. Ariela, abandonando seus sonhos hollywoodianos por minha causa? Ela sempre foi bem ambiciosa, sabem. Em tempos remotos, queria se mandar pra Aruba.

– Na verdade é meio esquisito, não sei se você vai acreditar em mim… mas eu estive no futuro, sabe.

– Masein? Como?

– Você não sabe como Nova York é uma cidade estranha, a gente encontra todo tipo de coisa lá! A Galeria Pajé é fichinha perto de todas aquelas streets.

– Outro dia eu fui na Pajé e tinha um Super Nintendo à venda. Cem reais.

– U-a-u. Olha, eu tô aqui querendo te contar uma viagem no tempo, vim de longe, ok?, e você vem com Super Nintendos?

– Tinha até Mario Kart.

– Tá, depois você me leva lá. Enfiiim! Deixa eu te contar o bafão que eu trouxe do futuro.

– Demorou.

– Eu te vi com trinta anos de idade. Uma coisa suuuper Jennifer Gardner, sabe? E você tava toda alternativinha, com um cabelo horroroso e umas roupas estranhas. Parecia Fashion Week, só que piooor, meu amor.

– Nóss. E eu trabalhava com o quê? Sabe que essa é uma dúvida constante na minha vida.

– Ai, não sei. Você era meio atriz, meio apresentadora de telejornal. Mas tinha planos de sair do emprego e virar escritora. E gostava de Doritos.

– Oh God!

– Pois é, tava feia a coisa. E você tinha um namorado igualzinho ao Johnny Depp, que tinha a mesma idade dele e tudo…

– Jura?! Mas isso é genial!

– … é, sessentão. Não dava nem caldo de Sparrow.

– Fica pior a cada segundo.

– Calma que dá piorar, querida! Você vai ter filhos com o Deppcrépito.

– E aí?

– Todos vão ter a cara da Keira Knightley. Mas com o seu cabelo.

– OH NÃO! Não, tudo menos isso, não!

– Ai, pois é. Desculpa, tinha que alertar você, pra dar tempo de mudar as coisas, sei lá.

– Mudar como?! Eu não conheço nenhum Johnny Depp cover, nunca pisei num estúdio de telejornal!

– Táá, tá bom… mas olha, você – trintona, é claro – vivia, viverá, sei lá eu, reclamando que não tinha aproveitado a faculdade o suficiente, seus amigos faziam muita falta… e que se você tivesse chegado nas pessoas certas, quem sabe não carregaria mini-Elizabeths Swanns por aí… pensa nisso. Vai que te dá um estalo.

– Você tá querendo dizer que eu devo começar a valorizar as coisas que eu tenho, em vez de simplesmente lamentar e não mover uma palha a respeito? Você tá querendo dizer que eu tenho que ser menos preguiçosa e mais enérgica, tenho que impor meus pensamentos e vontades, para não me perder nas vontades dos outros? Você quer dizer que eu deveria arriscar gostar seriamente das pessoas, afinal?!

– … É, é, que seja. E, ah!, não come tantos Doritos, viu. Cada estria deeeeste taman- que caixa é essa? Cláudia?!! Cláud-

 

– Já era, magrela!

~ Fin ~

(Sigam suas vidas felizes depois desse post. É que ele ‘tava nos rascunhos e… e… bom, ele ‘tava nos rascunhos.)

12 thoughts on “Mão na consciência: o (nem-te-)conto

  1. gostei meu.
    Ariela é um nome beeeeem bacana, poxa, achoq ue vou batizar minha consciencia tbm =P

    to indo ali comer doritos, quer???

    [falando sério, eu adoro o jeito que vc escreve e suas idéias são fodas!!]

  2. huhuhuhu
    Muito bom isso.
    Me lembro vagamente da tal magrELA.
    E, genteeeeeem, como é que ela foi ao futuro e viu você com o Deppcrépito? Um bissurdo isso.
    Acho que era outra pessoa, eu acho que sim.
    Já te falei num dos meus posts que você não vai casar nem ter filhos, né. Vida de artista sem gravidez indesejada.
    Sei lá, minha bola de cristal tá meio embassada…

  3. Querilda! Acredita que eu vim aqui hoje pra dizer que sentia falta da Ariela? Acredita? Hun? E quando eu chego aqui ela tá por aí, alegre e saltitante (o feliz e serelepe, como diria minha mãe)? Quer dizer, até vc colocá-la na caixa de novo… Tadinha…
    Deppcrépito! AMEI! *-*
    Vc sabe que vc é a Luísa Fernanda Veríssima da minha vida, né? ^^
    Recebeu minha carta? Olha, pode me mandar email, viu, juro que não mordo. Tenho uma resenha de um livro de geografia pra entregar amanhã e não fiz porrrrrrrrrrrrrrrrrr…caria nenhuma, e to aqui, falando com a página de comentários do seu blo–
    Tá, calei.

  4. OK. Tenho que assumir que acesso sua página todo dia, Cláu.
    É, eu sei, nunca comentei😐 Não me pergunte o porquê…

    Mas olha, você tá de parabéns, viu? Esse texto (bem como todos os outros) tá simplesmente ótimo.
    Até me dá orgulho pensar que te conheço (mesmo que seja só de relances na Paulista, medexa).

    Acho digno batizar a consciência. Assim que achar a minha, eu tento =)

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