Sobrevivente

Imagine a seguinte situação: você entra em um recinto habitado por criaturas de longos pescoços e uma certa elegância – inegável, com certeza – no modo de caminhar . Ao tentar travar contato com um espécime em particular, descobre que ele possui um tipo muito curioso e lastimável de cegueira, pois a criatura não parece sequer ter pressentido a sua presença no ambiente. Contudo – as curiosidades prosseguem – a enfermidade não é permanente, já que o ser trava contatos elegantes com outro ser de mesmo <s>escalão</s> gênero, talvez até da mesma espécie, embora as penas que brotam do seu cocoruto lhe confiram uma aparência singular.

Nesse estranho ambiente, a comida é farta, mas um tanto quanto venenosa. Não há indícios de água potável; as criaturas matam sua sede em recipientes cristalinos e cintilantes, sorvendo líquidos de estranho cheiro e sabor. Vinda de algum lugar, uma melodia preenche o ambiente por completo, conferindo uma aura de paz e serenidade entre os presentes – ninguém dança. Mas entre as conversas tilintantes e notas de música aguada, os bichos se exaltam com o menor indício de alimento. Sim, reafirmamos que são comidas venenosas; contudo, as criaturas não deixam sobrar quase nada – o instinto de sobrevivência grita e transborda dentro deles. Esbaldam-se com cremes de cores esdrúxulas e pequenos cubos de algo que parece pão; riem e trocam olhares, mas fazem tudo de maneira tão discreta e elegante que você, um aventureiro, mal repara na piscadela marota que o espécime ao seu lado lhe enviou.

Curiosas criaturas. Em cada palavra (ou seria grasnado?) que trocam, em cada movimento de cabeça e das articulações, há um pensamento embutido. Uma sutileza calculada, uma leveza artificial e sufocante. Com o convívio, você certamente poderia se tornar um deles, mas no momento, nesse ambiente, tudo o que você quer é gritar. Seres deslizam em suas peles e couros ao seu lado, e o ambiente vai enchendo. Será a música? Os passos coreografados? Os olhos que sorriem com afeto, mentirosos? Não se sabe ao certo, mas você precisa sair dali. Agora.

Esbarra em espécimes que lhe encaram, pela primeira vez, em choque. Ultrapassa o ancião do grupo e se dirige para a saída sem Cerimônias. As Cerimônias, aliás, agarram seus pés e ombros e lhe forçam a experimentrar mais um canapé, um pedacinho do doce, mas você precisa arejar. Você se enfia no primeiro cubículo que o levará ao andar térreo, e somente quando está na rua, se sente seguro.

Você sobreviveu a uma Festa Chique. Meus parabéns.

6 thoughts on “Sobrevivente

  1. é realmente… festas chiques são mto estranhas… sem contar os olhares tortos devido a sua vestimenta inferior… ou mesmo superior aos de mais u.u
    nunca da certo… nao pra mim que nao sei usar salto…
    ai como amo churras em que posso ficar de havaianas e tomando refrigerante em copo de requeijão
    =D

  2. kkkkkkk
    Adorei,festas chiques vá por mim não metade interessantes e são bem chatinhas na minha opinião.Ali você não vive,apenas finje!
    Bom mesmo é a velha festa do povão..eles é quem sabem se divertir de verdade!

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