A visitante

Foi hoje. Ontem ela já tinha batido na porta, mas eu não estava em casa, sabe como é. Aquela encomenda que só chega um dia depois.

Estava sentada no sofá da sala, como quem não quer nada (além de permanecer sentada), quando vejo ela chegar. Capuz longo e preto, cobrindo tudo o que poderia ser um rosto e um corpo; as mãos ossudas, os pés deslizando pelo chão sem realmente tocá-lo, a respiração (?) ofegante… era Ela mesma. Numa saída discreta, arremessei-me para trás da poltrona e saí andando de gatinhas (acho tão fino falar isso), mas ela me segurou pelo pé. Já era.

A Crise me pegou. Justo com a minha meia argo, tão bonitinha.

– Fala, garota. Você aqui outra vez? Tava demorando. Senta. Toma um chá.

– Tô meio sem tempo. Tinha que te fazer uma visita e pronto.

– Mas por que visita? Eu tava tão bem!

– É que é domingo, sabe. É nesse dia que eu trabalho mais. Principalmente lá pras cinco da tarde, é um horror.

– Lógico, tá passando Faustão na TV. Qualquer um entra em Crise.

– Opa, vem com essa! Ninguém entra em mim não. Eu que escolho meus “visitados”. Você, por exemplo.

– Isso é uma proposta? Porque eu não tô exatamente interes…

– Não seja babaca, Cláudia. Não que você possa evitar isso, é claro, mas tente ser menos hoje, ok? Tô com uma dor de cabeça horrorosa. Vou sentar aqui sim. Me vê um…

– … copo d’água? Já vi essa cena. Daqui a pouco vai perguntar se eu sou o Nat Ackerman. [/fim da piada interna de uma pessoa só]

– Na verdade, um pratão de feijão, arroz, salada e bife resolve o meu problema de maneira mais prática, viu? E um guaraná, por favor, só com gelo.

– Não, eu estou em crise, não quero sair do sofá.

– Ainda não. Seja uma menina boazinha e vai lá pegar comida pra mim, vai.

– Só tem miojo.

– Sabor carne?

– Frango.

– Tá, pode ser. Que saco.

– Hm, tá com uma cara boa. Você mesma que fez? Não esperava esses seus dotes culinários.

– Meus dotes culinários não me dão crises, desculpa.

– Sem problemas. Tem um queijinho ralado por aí?

– Tá abusando.

– Opa, Faixa Azul. Meu favorito. Sou alérgica aos outros, sabe.

– Então me diz logo o que você veio fazer aqui, além de me encher.

– Hm… acho que foi bem isso que eu vim fazer, na verdade. Claro que eu usaria outra palavra pra definir, mas a idéia geral é essa mesma.

– Eu achei que você estivesse sem tempo.

– E estava mesmo. Mas oras, todo mundo tem um tempinho extra pra Crise, não tem? O Bush pode esperar. Tenho uma encomenda das boas pra ele, acho que ele vai agradecer por esse tempinho que estou passando com você.

– Tá, e quanto tempinho vai ser, mesmo? Eu tenho que dormir.

– Ah, mas parte da magia se quebra quando as pessoas dormem! E eu não faço trabalho pela metade, meu amor.

– E que tipo de crise que vai ser? Mais psicológica, mais sentimental..?

– Pensei numa saladinha disso tudo, o que você acha? Bem distribuído.

– Não gosto muito de salada, pra ser sincera.

– Então eu uso outra palavra. Tipo “mix”. “Mix” é tão bom, não é? Rima com Twix e me dá boas lembranças.

– Que seja.

– Tá gostando da vida, Cláu?

– Você não é exatamente a melhor pessoa, digo, coisa, pra me perguntar isso.

– As ironias do mundo.

– Eu não tô em crise, você não tá entendendo. Eu sou um poço de felicidade e certeza.

– É mesmo? Você diz, um poço cheio? Cheinho? Transbordante?

– É sim.

– Que bom então. Acho que não tenho mais nada pra fazer aqui, não é isso?

– É…

– Então acho que vou indo. Você abre a janela pra mim? Eu gosto de saídas mais extravagantes, se é que me entende.

– Não, péra, pra que ir agora? Fica aê.

– Por que você quer que eu fique?

– Sei lá, domingos são deprês. E tá passando Fantástico.

– Quer conversar sobre isso?

– Ah, então, é qu… cretina! Você me pegou!

– Eu? Hein?

– Sua… SUA! Eu tava tão bem! Tinha visto Abaixo ao Amor, tinha até sonhado com o Ewan McGregor, sua desgraçada!

– Ai, olha só, deu minha hora. Hihihi.

– Volta aqui, sua desgramenta! Vol…ah, a vida. Ah, o 42. Quem sou eu? VOLTA! Nada mais faz sentido. Qual é a minha verdade? SUA HORROROSA! Ser ou não ser? Matar ou morrer? EU TAVA LENDO MARIAN KEYES, EU NÃO DEVIA ESTAR EM CRISE! Nunca mais passarei fome na vida ou isso é só um idealismo cinematográfico que fica bem nas câmeras? O que é real?

(E o pior de tudo é que ela levou meu miojo de frango. Ou será que ainda dá pra piorar, meu Deus?)

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6 comentários a “A visitante

  1. Huahuahuahua eu ri horrores com o texto =X
    Mas assim… não piora não flor… sempre tem uma luz no fim do tunel… e ca entre nos… miojo de frango é ruim!!!!

  2. Hahahahaha! Bah, maldita cinco horas da tarde do domingo, a longa e negra hora-de-chá da alma ¬¬. Terapia de choque sonora costuma ajudar a espantar a dona Crise(de preferência com guitarras, mas depende da prefência pessoal e instransferível da pessoa) \o/

  3. Muuuuuuito bão!
    Mas, meu, jurei que fosse um Dementador! Quase, né.
    Ui, e sair andando de gatinhas… que charme! rs
    A sua piada interna me fez lembrar do meu namorado. Ele sempre faz piadas sobre mim e diz: “Eu sou auto-suficiente em piadas, Paulinha. Eu racho o bico sozinho”.
    Hummmmmmm, Twix é meu chocolate preferido, benhé. Geladinho, então!
    O final também ficou demais. Esse joguinho de falar com os botões e gritar para a desgramenta… muito bom!

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