Gramofoi

Dia desses, na Augusta. Tinha que ser lá.

Senhor respeitável, de calças sociais (pobre criatura) e paletó dum xadrez sutil, suave. Vestia-se de um jeito praticamente cool, não fossem os óculos de grau enormes que quase tapavam seu rosto. Se bem que, nos parâmetros Sasha filha-da-Madonna de ser, ele estava bastante cool.

 

Deus nos acoolda

Mas ela não é meu foco e já esgotei meu tanque de crueldade por hoje, então vamos voltar a tema: o senhor da Augusta. Não era simpático nem sorridente, não parecia nem mesmo um sonhador ou rebelde dos anos 60; não tinha jeito de vovô contador de histórias, nem de marido à moda antiga ou patriarca da família. Era só um senhor de calças sociais e paletó bonito. E gramofone.

Como um filho, envolvia com os braços o gramofone. Esse sim, tinha uma personalidade gritante, absurda, prosopopéica. Pra começar, era douraaado, mas não dourado-socialite: um cor de ouro antigo, como quem não tem mais pressa pra brilhar. Já vivera muito, reluzira nos bailes antigos, conhecia Elvis de perto, amigos de antiga data. Não havia mais pressa. Um dourado, na falta de palavra melhor, digno. Ainda tinha a manivela pra girar o disco, a corneta em bom estado. Tudo lindo.

Ainda falta um personagem nessa história. Temos o narrador – eu, oi, eu! -, o senhor, o gramofilhone e… o antagonista, que vai ser apresentado daqui duas linhas. O vilão de bigodinhos finos, munido de cordas para amarrar pessoas em trilhos de trens. O Coringa da história. O terrível, o ameaçador, o nunca-bem-vindo aviso de “Vende-se”, pendurado no pé do gramofone, balançando ameaçador em cima da mão do senhor que sustentava o aparelho. Pensei em ameaça constante, sanguessuga, comensalismo. É, eu sou dramática, obrigada por notar. O “vende-se” não se escondia, pelo contrário.

Primeiro fiquei passada. Pensei em arrancar aquela droga de placa de papelão, rasgá-la em mil pedaços e pagar uma rodada de batatinhas fritas pra galera pro senhor de paletó xadrez no bar mais próximo; pensei em pagar pelo gramofone e devolvê-lo ao dono, ao pai. Ninguém deveria se desfazer de uma coisa que grita história, juventude, passado.

 

– Boleeero, seus versos tão banaaais…

Mas aí pensei que não sou contra sebos… nem MP4s. E que os dez reais no bolso não davam nem pra pagar uma batata frita, quanto mais um gramofone inteiro, mas isso é detalhe.

Toda hora a gente se desfaz de coisas: roupas que não servem mais, brinquedos que possam deixar outras pessoas mais felizes, livros cheios de anotações. São símbolos do que já foi, mas não são memórias. Das lembranças ninguém se desfaz, do mesmo modo que ninguém sai por aí doando um pedaço da coxa, osso ou coração enquanto ainda faz uso dele. É como se, blá, sou brega, mas é como se as lembranças formassem uma casa – os objetos que nos remetem a elas são só parte da mobília. Cadeiras são trocadas sem grandes dramas, por que estardalhaço? O que importa faz parte da estrutura da gente, não se muda mais, só derrubando a casa inteira mesmo.

E quando eu percebi tudo isso – há mais ou menos meia hora -, achei que mais digno que o gramofone, só o senhor do paletó xadrez.

4 thoughts on “Gramofoi

  1. Que amor esse post! =) aqui em casa o máximo que temos é toca-discos e bolachões.
    Concordo plenamente sobre as lembranças: elas ficam na gente e não nos objetos, por isso não há razão para não doá-los!

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