As dores do mundo

E aí, lembra do primeiro soco que você levou? Bom, talvez lembre, se ele tiver vindo acompanhado por, sei lá, um monte de broncas terríveis de alguém que você gosta ou um pau de macarrão girando no alto. Ok, vamos dificultar: e o primeiro tombo? O primeiro raspão na parede? E aquela vez que seu braço ficou na maçaneta? Horrível, né? Seu cotovelo naquele ângulo estranho, a pele toda levantada, nojinho, ugh, pára.

Mas você superou. Levou um tombo, chorou, doeu pra caramba, mas passou. Aquele olho roxo rendeu uma semana de saquinhos de gelo, mas você quase pisca como uma pessoa normal. Tem tanta dor que você nem sente mais! Minhas irmãs iam no dentista toda semana pra ajeitar o aparelho, e foram poucas as vezes que elas voltaram chorando fogo. A gente vai levando essa dor, esse choque, aquele roxo na perna. A gente vai ficando menos sensível às coisas, não chora, tem vergonha.  

E acho que a mesma coisa acontece quando se trata de notícias horrorosas. A gente começa se espantando muito com tudo – acho que fiquei uma semana com os olhos desfocados, quando a Princesa Diana morreu. Ou o Senna. O Heath Ledger. João Hélio te lembra alguma coisa? Terrível. E o bebê no saco de lixo? O caso Richtofen?  E aqueles tantos outros, que nem chegamos a conhecer? Pois é.

Se a gente captasse tudo de todas as dores de mundo, a chance de ficarmos doidos ia ser insana (hã). Não pensaríamos noutra coisa, nem Sweeney Todd a gente ia conseguir ver. Íamos chorar por tristezas que, frieza seja feita, não são nossas. São tragédias terríveis, problemas imensos e chocantes, mas que ainda continuarão a existir, de formas ainda mais atrozes, como não? A vida anda tão difícil, o medo tão dissipado, que num tem jeito de ser diferente: a gente se coloca atrás de um escudo impermeável de “nem-ligo”, pra não endoidecer. Porque a gente liga, sim. Ah, se liga.

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7 comentários a “As dores do mundo

  1. Ai… a Suzana morava perto da minha casa… perto assim… caminho pra escola… Lembro direitinho da gente voltando da escola no carro da minha vizinha e a rua dela cheia de policia e nos com cara de “Oh o que será que aconteceu hein???” Sem nem saber que aquela loca tinha matado os pais… E o pior é que a gente vai fazendo vista grossa pras coisas horriveis que a gente vai vendo sem se tocar que ta cada vez mais perto da gente né??? Que horror… e eu não sei nem o que falar =/

  2. E isso tudo para os casos que a gente ve na tv. Imagina quantos acontecem e a mídia não dá nem atenção?! Tem outros muito mais macabros e ninguém fica mostrando, o que, de fato, chega a ser uma injustiça até nisso.
    Mas se a gente chorasse por todos os injustiçados, onde ficava nossa vida, neah?!

    =*

  3. O negócio é que tudo vai banalizando, e a gente começa até a pegar nojo de tanto que falam em criança que sofre isso ou aquilo; é só o que passa nos jornais. Hoje eu vi uma charge que faz pensar, duas mulheres falando no caso dessa menina que “caiu” do prédio e uma criança ao lado delas dormindo na rua. Sendo assim, praticamente não entendo o porquê de tanto auê em torno de esse simples fato quando coisas mais horríveis acontecem ao nosso redor, não é mesmo?

  4. É, tem que ter esse filtro, preta. Não dá pra carregar tudo, né? É bom deixar passar umas coisas, pra não perder o senso de realidade. Mas nem venha me perguntar quais são os limites desse senso e da paranóia total, porque eu não vou saber dizer.

    Tem um autor da Antropologia, chamado Simmel, que discute um pouco sobre isso. Na verdade, não sobre violência, mas sobre o bombardeio de informações à que está sujeito o homem moderno, nesta época de comunicação instantânea. Não se relaciona com as dores do mundo como você colocou no post, mas se refere aos inifinitos estímulos por que passam os indivíduos que vivem nas grandes metrópoles. Ele fala da construção de um filtro realizada pela maioria desses indivíduos – porque, se eles derem atenção à tudo, vão ficar meio pirados.
    É bem interessante. 🙂

  5. Realmente interessante essa sua questão em relação as “dores do mundo” … se já nao bastasse os outros problemas que podem ocorrer “naturamente”… como problemas de saúde…. os homens ainda mutilam uns aos outros…. a ponto chegaremos?!
    Acho que não vou querer ver…

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