Anne in the sky

Era uma vez uma menina. Todos os dias, mas principalmente à noite, ela abria um tantinho as cortinas do quarto abafado e apreciava a lua. Tudo com muito cuidado, é claro, os tempos eram difíceis para os sonhadores. Cada janela aberta era um gesto de coragem, e ela era corajosa demais. Atrevia-se a sentir a brisa, pensar nas estrelas, sonhar. E reportar tudo ao seu diário, seu amigo silencioso e fiel. Ele não a delataria para os homens de farda.

Foi numa dessas noites que a garota deixou a janela aberta por mais tempo que devia. Talvez entretida com o diário ou suspirando sem motivo, mal reparou no garoto que entrava no quarto, voando, arrastando a curta cortina.

Demorou-se a notá-lo. Sentiu que havia algo de errado no quarto, é claro, mas quem não sentia? Eram tempos difíceis. Quando o encontrou, encolhido em um canto, suspirou de alívio. Qualquer criatura que soubesse voar era digna de respeito e admiração.

Ela queria aprender a voar. Ele temia por ela, os tiros, o mundo, ela inexperiente. Prometeu que ensinaria, mas aos poucos, até que os céus fossem seguros de novo. A menina aceitou. As aulas de taquigrafia pareciam banais, agora que ela ia voar como um passarinho.

Passaram a se ver todo dia. Toda hora. Treinavam os vôos na sala, no canto escondido. Não demorou até que ela perdesse o chão por completo. Nos minutos distantes um do outro, dedicavam-se aos pensamentos. Os homens de farda cairiam por terra, e ela ganharia o mundo. Ao lado dele.

Mas um dia, tudo mudou. Cinzento dia, mau pra voar, ela abandonou sua janela, o diário, o quartinho. Abandonou também o garoto – não era sua culpa – um traidor da família – ela não sabia – como saberia? – todo mundo surpreso, apavorado – quem não estava apavorado?

Kitty – o diário – ficaria sem uma mãe…

A menina foi levada para o campo, mas não podia voar lá. De não voar, minguou. Murchou. Morreu.

O menino teve mesmo destino, tempos depois. Descobriu, talvez, que não podia mais voar sem ela.

E por sinal, o nome dele era Peter.

 

E pensar que ainda conseguem chamar de “entretenimento”…

8 thoughts on “Anne in the sky

  1. Aaaaaaaaaaaaah, que inveja!
    Chego aqui e logo dou de cara com o bottom da Capriiiiiiiicho!
    Mas que graciiiiiiiiiinha de estudante!
    Logo logo na Abril! (não esquece da amiga, tá).

    Sumi, claro. Voltei, claro.
    Agora vou comentar seu post.

    Opa, e falar também que o lay ficou mais lindo!
    E adorei a frase ali nele sobre amadurecer…
    Mas nem no outono?

  2. Meu Deus, que história linda! Que história e que estória!
    O seu post ficou perfeito. Até parece que fui eu! (modesta nada)
    Mas, na verdade, não sei muito o que dizer… Ficou perfeito.

    Ah, e eu tinha que falar que o template ficou fantástico. Me vi brincando com todos esses balõezinhos que aparecem… que mágica!

    Beijos

  3. Nossa.
    Ler esse post me fez ter vontade de Across the Universe de novo, vontade de finalmente largar a má vontade e ir ler o diário de Anne Frank e a saudade incrível de ver O Menino que Sabia Voar (conhece, né? Tri-campeão de Sessão da Tarde, mas muito bom).

    Engraçado como ficou marcado que filme de sessão da tarde tem que ser ruim. Só porque são de graça, são ruins? Tá, a maioria que eu já vi é ruim (tipo a história de um garoto que virava tritão, que passou hoje durante meu tédio máximo das férias que não acabam). Alguns filmes são legais, tipo O Menino/Garoto que Sabia Voar, é mágico! Já passou um (cujo nome não lembro) que falava sobre dois irmãos autistas e a dificuldade da mãe para criá-los e tal. Ok, os melhores que passam são os “baseados em FATOS reais”, mas ficou o rotulozinho.
    E Lagoa Azul tem um roteiro bem interessante.

    Por falar em Peter e em nariz, somos só nós (eu e ela) ou você também tem tara por narizes? Eu acho nariz comprido um charme! Mas comprido tipo o do Adrian Brody (O Pianista).

    O Depp dá mais orgulho do que decepção, então dá para perdoar algumas coisas. E ele canta bem sim, a propósito, eu ouvi a trilha da Broadway para o Sweeney, e gostei mais do Depp cantando do que o que estava naquela trilha. O que eu mais gosto das personagens do Depp é que elas são tão carismáticas que você pensa que conhece o Depp perfeitamente bem, tipo, desde sempre! Acho que é por isso (e aquele rostinho envelhecendo suppah duppah charmoso) que ele foi eleito como o ator com maior fidelidade dos fãs.
    Mas acontece de ele ser ofuscado por outros atores, sabe? Se você já viu Gilbert Grape, saberá do que estou falando. Aquele filme é a deixa para o Sr. DiCaprio se orgulhar de dizer que fez um trabalho melhor o que o Depp. Não que o Depp estivesse atuando mal, pelo contrário, o Gilbert é um dos melhores papéis dele, para mim, mas o Archie (DiCaprio com 14 anos, acho) está simplesmente maravilhoso! Tá, o roteiro favorece, mas mesmo assim! Outro exemplo é o Mort de Janela Secreta, é o melhor papel dele, para mim, mas o John Turturro acaba com o Depp naquele filme, sem dúvidas.

    Eu, agora, peço desculpas por fazer comentários gigantes, talvez maiores que os posts. É que, sabe, eu me empolgo com cinema e essas coisas, e sempre acabo achando uma saída para falar de cinema. Aiai, cinema!
    Por falar nisso, já ouviu o Carioca? O último álbum do Chico Buarque, não sei se as músicas “Ela Faz Cinema” e “As Atrizes” são só desse disco, mas valem muito a pena ouvir. Se conseguir, ouça o disco todo. Apesar de ter achado peculiar (não encontro outra palavra) o remix que ele usou em uma das músicas. Não ficou ruim, mas me tira o ar de Chico, é esquisito para mim.

    Tá, eu não vou parar com isso, né?
    Só quando apertar ali no Submit Comment, mas a culpa é sua, eu acho que você me faz querer falar e falar e falar.
    Anne que se cuide, vamos voar todos (você, Lilian e eu) com ela? Ela vai se figurante nos nossos triálogos. Tipo a velha cigana que aparece em Before Sunset.
    Tá, parei😄

  4. E eu não entendo porque ainda não tomei vergonha na cara pra ler Anne Frank, sendo que todo mundo que conheço que leu fala maravilhosamente bem (inclusive você e seu texto estupendo!), e tem dois, eu disso DOIS livros dela aqui, que foram emprestados a minha irmã a no mínimo uns 6 anos… :~
    Mas seu texto me deu uma animada a finalmente ler e sair desse tédio que minhas férias andam… :3 Três vivas para a Cláu! \o/

    E ok, eu levei um susto quando eu li: “Leff”. Leff? o.O
    Que bom que se conheceram. *-*
    E eu fico simplesmente encantada com o gosto que vocês tem por coisas supimpas. Sério, de fazer uma super inevjinha a nós meros mortais. :~

    =** Cláu!

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