Um texto: vida e obra

(inspirado por uma inspiradora ponta de durex, uma conversa com meu diário e um bloqueio criativo)

Às vezes, um texto nasce. Assim, como quem não quer nada, brota do solo fértil do mundo das idéias e cai por terra, mergulha de cabeça na cabeça do outro. O progenitor (às vezes, é mais de um) se alegra com o parto do texto. Brinda, saúda, vida longa ao texto!, os entusiasmados futuros leitores desejam.

O jovem texto requer cuidados. Mimos. Brinquinhos Adjetivos de ouro, substantivos com o nome do texto gravado. Aliás, que nome! O título merece um parto só para si. “Tô achando que esse aqui tem cara de título composto, que que cê acha, amô?”, no que o Amô responde, “o que você quiser, querida”, e a Querida não gosta. Quer ajuda do Amô pra escolher o nome do rebento. No final, Amô e Querida optam por um título simples, de três letras e significado obscuro, porque assim o texto não vai ter apelido quando crescer.

Porque o texto cresce. Às vezes é mirradinho, tímido, não desenvolve muito. Às vezes, engole uma lata de fermento numa só tacada e cresce demais, mas não tem “sustância”, é só um monte de farinha, de letrinha junta, sem recheio, sem nada.

Bom é quando o texto não cabe mais em si, não crê em limites… linhas, letras, tudo o tolhe demais. Bom é quando o texto ganha corpo e personalidade. Ganha o mundo e mil interpretações. E quando volta pra casa, atulhado de lembrancinhas de viagem, descobre-se outro, mais maduro. É agora um senhor texto.

E às vezes, tão senhor de si que é, o texto descobre-se independente e sem rivais. Tá pedante, o texto! Não suporta críticas. O autor bem que tenta retrucar, dizer que não é perfeito, que é cheio de imperfeições lingüísticas e respingos de tinta,  como ele mesmo!, o próprio autor, e qualquer outro homem e qualquer outro texto. Mas a criatura não escuta e engole seu criador, deixando a macarronada de domingo intacta em cima da mesa. 

O texto engoliu documentos e mitos. Fama e nomes. Adjetivos e subjetivos. Metros e metros de gravata, João Cabral, Caetano Veloso. Não queria rivais nem lembranças. Céus, o texto enlouqueceu. Era um texto tão coeso, tão bom!, choramingam os leitores. Agora não cabe em si, ficou maior que a cabeça de quem o criou, que agora agonizava no limbo destinado aos criadores-dos-textos-de-grande-fama.

Mas um dia, talvez num outro domingo, na cadeira de balanço, o texto agoniza seus últimos instantes. No frio do esquecimento dos leitores, das páginas amareladas, na citação que foge da boca do amante… morreria como quem nada queria, talvez um espaço, talvez uma página, nada mais, e agora isso, o arrependimento doía, engolira o autor, meu Deus. Morria de dor, de arrependimento, de tédio… perdendo sentido e substância. Outros textos menos ambiciosos viverão e viveram, bem que aconselhavam a não ser tão ganancioso, a não engolir o autor, e agora, agora ele dava os últimos suspiros, lembrando passagens, viagens, aquela bela tradução alemã…

Às vezes texto e autor morrem pra nunca mais. Às vezes, contudo, cortam a barriga do texto ainda quente e lá descobrem um autor encolhido, assustado, mas jamais com o mesmo brilho. E às vezes é tão contrário, veja só que sem sentido, como se algo fizesse sentido afinal!, é o autor que mata o texto, cansado de sua fama, cobiçoso de seu status, era Doyle e não Sherlock, então mata pra se livrar de uma vez daquele idiota que lhe arrebatara uma condecoração da rainha inglesa e fim!

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4 comentários a “Um texto: vida e obra

  1. MEODEOS, fui citada!

    Fora que, nham, sai daqui, sua menina dos textos bons (ai, parei, daqui a pouco o texto não cabe em si – ou te engole). Para de ultrapassar as barreiras do imaginável com esses textos brotados da mente fértil e blablabla 😀 Paguei um pau, oks.

    Ahhhhhhhhhhh e o Johnny e o Burton e o Snaaaaaaaaape.
    Desculpa, meio surtei com seus dois posts e ai, parei.
    Beijo tchau e – mimimi – até amanhãããã!

  2. Uau, que viagem essa do texto, e autor! hahaha

    Gostei muito, tá ótimo…

    quanto ao post de baixo, fico feliz que um simples e-card, tenha lhe dado inspiração pro título do post! kkkkk

    Agora fico por aqui, e lhe desejo uma excelente semana, sra colaboradora da Capricho! hahaha…

    Quero ser colaborador da Superinteressante! Humpf…

    Beijos Mil…

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