Escovas (d)e dente

Ontem eu fui ao dentista. Como eu tenho medinho aflição de médicos em geral (à exceção dos oftalmologistas, que me divertem), cheguei na recepção com as pernas bambeando sutilmente. Ia ser realmente legal se aquele sofá escuro – atulhado por revistas estilo Quem, Contigo, Caras, Veja – me engolisse de uma vez, antes que o inevitável e temível encontro com a maquininha rodopiante-de-barulho-ameaçador acontecesse.

Só que… o encontro foi divertido! Foi quase como esperar por um serial-killer alcançar você na esquina e encontrar, na curva enevoada da rua, um cachorrinho lambão ou um vendedor de algodão-doce. Sublime, sublime. Desde então, virei quase fã dos senhores dentistas. Tanto, mas tanto, que para os recém-saídos da faculdade de Odontologia, deixo a dica: inventem entre vocês uma espécie de cabelereiro dental.

Sim, sim. É isso mesmo. Tanta gente trata dentista como sua manicure pessoal, não é não? Volta-e-meia você vê pessoas famosas tipo as ex-meninas do Rouge ou, sei lá, qualquer pagodeiro à sua escolha, exibindo por aí dentes brilhantes como pérolas. Ou até mais do que pérolas.

 

medo.
Medo profundo e enraizado.

Então reflita você, jovem dentista: em vez daquele branco-everywhere, seu consultório pode ser super descolado, com móveis da moda e sofás vermelhos. Só não pode rolar uma cafeteira discreta ali no canto, senão quebra o encanto e ninguém vai te levar a sério, né verdade? Huhu.

Na sala de espera, uma atendente obviamente sorridente mostrará ao seu cliente o menu de opções catálogo de serviços. Em vez de pedicure, o consultório oferece limpeza completa dos dentes e tratamento da gengiva. No lugar da manicure, clareamento dental. “Não, não temos máscara de algas, mas podemos jogar um jato de água quente na sua cara para limpar os poros”. Maneiro. E em relação ao cabelereiro, o número de palavras disparadas por minuto no ambiente ia ser beeem menor. (:

Para os pequenos, em vez daqueles carrinhos medonhos que você encontra em salões-que-querem-ter-moral-com-as-criança, enormes escovas de dente (azuis) com volante. As meninas iriam ganhar castelinhos de plástico, com o Príncipe Oral-B e a Princesa Colgate incluídos. Os adolescentes também iam ganhar espaço: num cantinho fechado e esterelizado, profissionais fazem o primeiro furo dental por módicos cem reais. Coisa fina.

Quase consigo visualizar a cena.

Uma perua de tailler justo e vermelho chega no consultório rebolando e desfilando, ao lado de um menino tímido. A mulher bate três vezes com o nó dos dedos no balcão e chama a atendente de modo rude. “Ô loirinha, vem cá, que eu quero ser atendida AAAGORAAA!”

Os sapatos fazendo barulho de saltos altos em movimento, a loirinha vem correndo. Sorri esbaforida e tensa para a mulher e o pobre menino.

“O que vai ser hoje, senhora Rouge?”

“Ai, o de sempre, queridzinha. Eu tô com pressa, tenho que levar o Richard Carlos para a escola, tem reunião dos pais à tarde.”

“Posso lhe recomendar um branqueamento express? Leva uma horinha apenas e o resultado é fantástico.”

“Ah, então pode ser. Richard Carlos, Richard Carlos! Seja bonzinho com a mamãe e pegue aquela Vogue pra mim. Isso, ótimo, bom garoto. Agora vá fazer alguma coisa enquanto a mamãe se ajeita pra reunião”, diz a Abominável Mulher em Vermelho, sentando-se na cadeira do dentista e abrindo a boca. Não que fosse uma novidade para ela.

Enquanto isso, Richard Carlos passava os olhos pelo ambiente multicolorido. Dezenas de pessoas, a maioria mulheres, espalhadas pelo salão com as bocarras abertas, enquanto os dentistas, devidamente trajados com roupas coloridas e descoladas, faziam seu trabalho, sorrindo e cantando. Richie chegou a cogitar a idéia de entrar num dos carrinhos-escova, mas estavam todos lotados.

– Querido, você não quer brincar com as escovas elétricas ali no canto? – Sugere docemente a loirinha do balcão. Richie estava prestando atenção em outra coisa, contudo.

– Que barulho é esse?

– Ah, é a nossa música ambiente, querido. Talvez esteja mesmo um pouco alta demais.

– É outra coisa… parece… sei lá, um motorzinho…

Neste instante tudo é silêncio. A senhora Rouge, sentada na última cadeira do fundo, urrava de dor. Os dentistas se sobressaltaram todos.

– CORRAM! DEU CANAL! DEU CANAL! A POSTOS, EQUIPE DELTA!

Richie prometeu que nunca mais voltaria lá.

*Antes que me perguntem, não. Eu não tenho uma obsessão com o nome “Carlos”. Foi uma coincidência feliz. :B

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8 comentários a “Escovas (d)e dente

  1. AMEI a Dana e o Carlos!

    E dentistas não me dão medo, eles são legais!
    E eu prometo, PROMETO, que quando eu voltar de viagem eu devolvo as teias pro Aranha! hahahaha

    Beijo Cláu!
    (By the way, vê meu álbum)

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