A poltrona e o amor

(Inspirado por Ver!ssimo e alguns acontecimentos da vida.) 

A Dana e o Carlos faziam parte daquele grupo de pessoas que todo mundo inveja; lindos, jovens, ricos e simpáticos. Não foi à toa que se apaixonaram no momento que o olho (verde-água) de um recaiu sobre o outro. Amigos em comum já sabiam que aquele casal ia vingar. Eram perfeitos, realmente perfeitos um para o outro – e para os outros também.

Mas como em toda história de amor, havia um dilema que perturbava os doces sonhos dos jovens enamorados. Dana tinha 15 anos (que disfarçava suavemente com a maquiagem e o salto alto) e Carlos, apesar do físico avantajado de atleta, 16. Dana morava em um bairro nobre de São Paulo, enquanto Carlos morava em outro bairro nobre da mesma cidade, só que na ponta oposta. Não estudavam juntos, não havia ônibus que os levasse para o bairro do outro; também não tinham carta de motorista, é claro, e seus choffers não tinham permissão para levá-los aonde quisessem. Que tragédia.

Não tinham lá muitos vínculos reais, pra falar a verdade, exceto por um shopping que ambos visitavam sempre. A mãe de Dana era dona de todas as lojas do primeiro andar e o pai de Carlos, dono da empresa responsável pelo estacionamento VIP. Naquela época, o shopping estava em fase de expansão (a mãe de Dana comprara mais seis lojas) e sempre havia reuniões às terças e quintas, com os diretores dos estabelecimentos, para decidir aquelas coisas todas que empresários decidem.

Era a oportunidade perfeita para os namorados se encontrarem. Armaram tudo por MSN e, quando chegou o primeiro dia de reunião – “aquela chatice”, diziam os pais de Dana e Carlos -, ambos pediram para ir junto ao shopping.

“Vou comprar alguma coisa enquanto você vai à reunião, mãe”, dizia Dana, enquanto ajeitava o lápis de olho.

“Vou olhar as gatinhas enquanto você vai nessa coisa chata, pai”, informava Carlos ao pai, arrumando os cabelos negros em um topete fantástico.

Era provisório. Coisa de meses, talvez, semanas. Logo poderiam contar aos seus pais sobre o namoro e tudo ficaria bem. Iriam à casa um do outro. Seriam lindos, jovens, ricos e simpáticos por toda a eternidade. Era destino que ficassem juntos.

O primeiro encontro foi tudo que ambos sonharam. Tomaram o mesmo milkshake em canudinhos iguais, andaram de mãos dadas, se beijaram sob a chuva, na despedida. Em um momento mágico, descobriram no shopping uma linda poltrona de dois lugares, macia e enorme, e lá ficaram aninhados, nos braços um do outro, até a hora de ir embora. Os passantes olhavam para o casal com ternura, quase ódio.

O segundo encontro foi só poltrona. E amor. Esqueceram-se de comer, de beber, de tudo o mais. Ficaram na poltrona a tarde toda, namorando, fazendo confidências um ao outro. O sofá não agüentava mais aquela ladainha de “te amo”, “te amo mais”, “te amo mais que tudo”, “então eu te amo mais do que você me ama”, “te amo mais do que eu amo você duas vezes”, mas o que se havia de fazer? Estavam apaixonados. Eram jovens, ricos, lindos, aquela coisa toda. Eram perfeitos um ao outro, até o sofá sabia. E agüentava.

E os meses foram passando. As reuniões sobre a extensão do shopping se tornaram cada vez mais demoradas, para a felicidade de Dana e Carlos, que ficavam nos am… abraços até o shopping fechar. Mas o sofá, ah, o sofá não agüentou mais aquela tortura. O sofá gostava de amor, mas queria outros amores, amores variados, de outros tamanhos e pesos, principalmente. Sabe como é, o Carlos era bem alto, atleta… músculos e ossos grandes pesam. Enfim. Numa tarde excepcionalmente quente – tanto no clima lá fora quanto no clima que ebulia por dentro os namorados -, o sofá entrou em depressão e se rompeu em lágrimas de espuma. Botou um bocado de entranhas molas e enchimentos para fora. Um horror.

Dana e Carlos se entreolharam, preocupados. Por sorte, a mãe de Dana acabara de ligar, avisando que a reunião enfim terminara. Foram embora juntos, carinhosos (e simpáticos, e jovens, e… ah, vocês sabem), mas nos pensamentos ocorria uma preocupação: e o sofá?

Dana pensou que talvez fosse a hora de admitir o namoro para os pais, afinal. Eles entenderiam, como poderia ser o contrário? Até trabalhavam juntos, iam às mesmas reuniões… Dana e Carlos não tinham problema com dinheiro, tampouco. Poderiam pagar os prejuízos do sofá, se quisessem. É. O rasgão no sofá significaria uma nova era no relacionamento dos namorados. Ela se sentiu feliz. Nada estava perdido.

A última reunião aconteceu uma semana depois do encontro rasgante. Os namorados se encontraram na porta do shopping, ambos um tanto quanto sem-graça (“sem-gracice temporária, pensou Dana”) e automaticamente se dirigiram para o lugar onde o sofá normalmente ficava, falando amenidades. A terrível verdade não demorou a aparecer: o sofá fora trocado por um enorme e desconfortável banco de madeira.

Carlos encarou o banco e, depois, Dana. O banco, Dana, Dana, o banco. A decisão que se formou em sua mente pareceu muito dolorosa.

– Dana… Daninha – Ele a encarou, triste. Seus olhos brilhavam como safiras. – Minha doninha. Acho que isso não está mais dando certo.

– Mas… mas como assim?!

– É, doninha. Acho que a gente vai ter que terminar. Não sou eu, é voc… não, não, o contrário disso. Desculpe.

– O q…?

– Isso está sendo doloroso pra mim. Tenho que ir.

– Mas por causa da poltrona?!

– Adeus, Doninha.

– POR CAUSA DA POLTRONA?!

Carlos não respondeu; seguiu em frente, rumo aos estacionamentos. Dana estacou, sentada no banco de madeira, repetindo “poltrona” para si mesma. Dizem que ela repete a palavra até hoje, no sanatório, quando a deixam nervosa.

Aliás, os pais de Dana e Carlos estão namorando, sabiam? Faz dois anos, agora, pretendem se casar.

E pensar que tudo começou naquelas poltronas da sala de reunião.

One thought on “A poltrona e o amor

  1. Hahaha

    Muito bom esse texto viu…
    Depois de uma breve passagem por novelas da Globo, onde casais apaixonados beijam-se numa tórrida chuva, você terminou muito bem.

    Adorei o final, das poltronas, e ela num sanatório! E os pais deles então… kkk

    Muito bom! Mesmo!
    Beijos Mil…

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