Rainy days and mondays

É divertido perceber como a chuva entra em pauta nessa época do ano. Já foi assunto cubiculado, pargaraviado e até mesmo (salve salve!) garotasquedizemnizado. Algo me diz que é minha vez, porque todas essas moças falaram bem demais desses pingos, e eu vou ter que ser Do Contra. Se não fosse do contra, seria o Nimbus, e toda a minha moral ao falar mal da chuva se perderia no tempo-espaço. Ou na chuva.

Já digo de cara: não tenho absolutamente nada contra chuva, muitíssimo pelo contrário. Se os nossos bosques têm mais vida, é por causa das chuveiradas do céu. Depois da tempestade, vem a bonança, e de bonança em bonança sempre rola uns pingos molhados. Sou apaixonada por água, acho que raios são bonitos, adoro muito tudo isso – mas odeio o clima que assola a cidade nesses momentos aguados da vida.

São Paulo não precisa de ajuda pra ser cinzenta, basta olhar para as pessoas. Aliás, não fica olhando muito não, que vai que uma delas leva pro lado pessoal e avança e come seu cérebro e depois te dá um chute, leva sua carteira e usa seu RG pra construir um bingo. Ok, muito menos do que isso. Sampa também é uma coisa linda, uma coisa agitada, louca e linda, mas é absolutamente cinzenta, triste e robótica. Chuva e eletrônicos não combinam. Não será um simples toró que vai refrescar a cabeça desses urbanóides neuróticos que somos nós, em geral. A graça da chuva está nos dias quentes que vêm antes e depois, na grama que fica mais verde e cheirosa, e o concreto não fica verde nem cheiroso.

Ninguém anda por aí com uma leveza digna de Gene Kelly. Já vi cidadãos se agarrarem à base do guarda-chuva como se essa fosse um sabre de luz ou uma granada – o que for mais eficaz para sua proteção contra aquele mundo mau cheio de gente feia e boba e molhada e má. E boba. Já disse feia? E molhada, molhada que dá medinho!! Urrgh, gotas d’água, que desagradável.

Hoje foi ótimo. Eu bem que estava aproveitando a refrescante sensação de bem-estar chuá chuá da cidade da garoa, com algumas pequenas reclamações em relação ao vento, enquanto os transeuntes passavam zunindo, os guarda-chuvas escancarados e perigosamente semi-abaixados. Tive que acompanhar o ritmo, ou ficava pra trás. Ainda bem que meu óculos é lobo-do-mar, porque hoje o coitado se envolveu em uma briga com um guarda-chuva mal-encarado e ganhou mais uma cicatriz de guerra. Mas isso não vem ao caso.

A chuva faz lembrar que, na verdade, todo mundo é solitário. Já cantavam os Carpenters: Rainy days and mondays always get me down. E não tive prova maior disso do que a de hoje de manhã, ainda no caminho para a faculdade.

(Essa é a parte séria e triste do post. Se não quiser ler, vá em frente, ou melhor, fique bem onde está.)

No meio da avenida pousava uma coisa estranha, meio inexplicável, sem pé nem cabeça. Minto, porque as patas ainda tinha. Um cachorro, esquecido na chuva, na contramão, atrapalhando o tráfego. Na hora, não o reconheci como um bicho – os carros haviam feito muito estrago em seu corpo. Mas logo chegou aquela aflição que os vivos sentem quando se deparam com um morto… o desconhecido, o estranho, aquela sensação inexplicável e congelante. A chuva chovendo, o farol fechado, depois aberto, lento…

Não duvido que eu fosse uma das poucas pessoas ali a ver a cena, porque ninguém mudou de direção quando alcançou o lugar onde estava cachorro, ninguém parou pra ajudar, lamentar, enojar-se que seja. E do que eu tô falando?, já que o meu maior gesto de sentimento pelo cão foi expor a história dele num blog. Eu mesma não fiz nada, segui de cabeça baixa, com medo de… água!

Em dia de chuva, todo mundo só quer proteger o rosto do frio. Olha pra baixo e vê apenas o próprio umbigo.

E nesses dias, São Paulo, ou qualquer outro lugar, é uma merda.

3 thoughts on “Rainy days and mondays

  1. Eu amo chuva. Demais. E amo São Paulo com chuva, por mais deprimente que seja. Não sei exatamente o motivo. Só sei que, melhor do que estar em São Paulo com chuva, é viajar para lá com chuva durante todo o percurso de 2 horas que eu enfrento. Por mais que eu goste de ver paisagens bonitas iluminadas pelo sol lá em cima (não, bestona, sol vindo do asfalto), com chuva é melhor ainda. Mesmo porque a paisagem daqui para São Paulo em nada tem a ver com a paisagem que se vê no caminho daqui para Franca. Mas enfim, se São Paulo já me atrai sem chuva, com ela fica melhor ainda. Alguma coisa me atrai mais ainda na cidade cinzenta e chuvosa. Ver as pessoas passando, prestar atenção em cada detalhe. Porque, sabe, aqui em Tatuí eu praticamente já decorei os detalhes e a graça foi-se embora há muito tempo. Mas São Paulo sempre tem algo novo pra notar, escondido no meio da chuva, ainda que seja um cachorro abandonado. E sobre ele eu não vou falar, porque vai me trazer lembranças horríveis ._.”
    ;**

  2. Nesses dias cinzentos, e principalmente chuvosos, acho que inconscientemente nos voltamos pra uma certa melancolia da qual não sabemos explicar de onde vem e por que vem.

    Talvez a solidão nesses dias vem daí. E esse nossa vontade de proteger nosso rosto do frio, seja também uma ação de nos proteger de algo que não temos noção do que é nesses dias…

    Enfim, não estou aqui para filosofar em cima do seu post, hehehe…
    Mas também concordo com você. Nesses dias qualquer lugar é horrível. Eu lamento mesmo pelo cachorro. coitado…😦

    Beijos Mil…

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