Eis o mistério da Sé

Faculdade. Por volta das 9 da manhã, já tem uns meses que aconteceu. Aula de História da Arte. O tema: Estilo Gótico. Uma coisa realmente linda, verdade, todas aquelas igrejas pontiagudas e vitrais e WOOOW, eu teria surtado por completo com aquela aula, se não estivesse morrendo de sono por razões escusas desconhecidas. Os slides lá na frente não convenciam os meus mosquitos tsé-tsé interiores, eles são realmente persistentes, sabem. Já estava procurando uma parte mais fofa na mesa de madeira, fechando os olhos deeevagar, pronta para mergulhar em um mar de pinturas psicodélicas e patos repentistas quando o professor, láá longe, tão distante, diz a frase:

– Se vocês forem um dia à Catedral da Sé, reparem como as paredes falam com você.
(ou qualquer coisa assim, eu estava com sono e totally viajo ainda mais nesses momentos, relevem)

Não, eu ainda não tinha dormido. Levantei a cabeça o mais rápido que meus reflexos zuper condicionados permitiram, só pra testar se eu tinha ouvido direito. Paredes? Sé? Falar? Quack? Não, sem quacks por enquanto. Bom, eu sempre soube que paredes tinham ouvidos, mas falar é realmente um avanço… paredal! Isso explica porque tem tanta construção antiga em Roma. Quem tem boca…? Hã? Sacaram, sacaram, heeeein? Tá, tá bom, eu já entendi. Em todo o caso, eu sorri da frase do professor, pensei um pouquinho sobre o assunto – tentando lembrar das antigas visitas à catedral, sempre excursionadas pela avó devota -, mas foi questão de minutos até a dança hipnótica de patos repentistas me puxar de novo pro mundo onírico. E meninos, eu fui. Ah, se fui.

Alguns meses e dias e horas depois, mais acordada do que na outra ocasião, voltei a pensar no assunto… pois voltei na Sé. Não mais acompanhada pela avó, e sim com amigos e uma missão jornalística em mãos (que nem era minha, mas relevem isso também). Contudo, tem coisas no Centro de Sampa que nunca mudam, presas às tradições tal qual o Marco Zero no chão de pedra: o cenário externo da Catedral é uma delas. Mudam os profetas, mas as teorias do Grande Lenço Branco Armagedon continuam a ser propagadas pelos quatro cantos da Praça; são outros os homens que esperam por milagres na frente da Igreja e, de tanto esperar, acabam dormindo e vivendo por ali. O Sol brilha impune sobre as cabeças desprotegidas, às vezes sonhadoras, às vezes dementes, e os japoneses sorridentes posam em frente à Catedral, escolhendo um bom ângulo por trás das lentes e cliques de suas Kodaks. Nada mudou. Gritos, engraxates, mulheres em discursos roucos e solitários, anúncios do Salvador na Terra, homens comprando ouro. Pobreza de hoje e riqueza do ontem convivendo em plena desarmonia urbana ensolarada, o civilizado é o Caos. A escadaria da Catedral acolhe os corpos cansados de homens, mulheres e sacolas, mas já no primeiro pedaço de piso da igreja da Sé, tudo se transforma.

Você pode acreditar (ou não) em quem quiser: de Alá a Megarresfriadon Verde, a sua fé é completamente sua, longe de mim ficar discutindo a crença de cada um. Mas a grandeza da Sé é inegável, galeran. Passar pela entrada faz pensar como você é pequeno, que é de fato o efeito desejado pelas igrejas católicas medievais, mas também faz crer que, cara!, bem que o Hagrid podia casar ali, numa boa, que bom pra ele =D! Faz pensar em planos grandes, realidades distantes e Terras (isso, com T grandão) que você não conheceu, vida antiga e RPG. É uma experiência animal, basicamente. 😀
Sem falar que gente, aquele Sol de fazer gato entrar na banheira e a Catedral ali, simplesmente soprando a brisa mais bem vinda de toda a minha vida, tudo isso nããão era normal. Se foi milagre, coincidência ou investimento esperto nos ventiladores da igreja, num sei. Só sei que foi assim.

E foi nesse momento que a primeira parede deu com os dentes na língua. Bem discretinha, do jeito que uma criatura colossal, já com seus duzentos anos de concreto, falaria: quase muda. Não foi nem uma fala, foi quase uma mensagem subliminar, tá compreendido?! Eu notei que havia algo de estranho no Rémy ali, algo a mais naquele quase-Em-Busca-do-Cálice-Sagrado lifestyle todo que exalava das paredes, mas boralá, deve ser impressão, vamos ver a Catedral. É linda, de verdade, causa um turbilhão de pensamentos e sensações nunca dante navegados. Só não entendi ainda o porquê daquela imagem de Jesus na tumba, lá no fundo da igreja, meio perto da cripta. Aliás, dica psicoterápica do dia: NÃO, NUNCA, JAMAIS mostrem uma imagem dessas pra sua neta de cinco, seis anos, ainda mais se nesse momento você tiver uma vontade louca de dizer “vai filhinha, coloca a mão no vidro”. Ela cresce com vááários problemas filosóficos ai meninos eu odeio vocês psicológicos no mínimo interessantes, porque não entende metade do que o ritual significa e só terá traumas forever in her heart ok beijos.

Bom, deixa o colega trabalhar, que ele tem matéria-relâmpago pra fazer e pessoas a entrevistar. Dei umas três voltas inteiras na catedral, passando na frente do altar imenso e da secretaria; a cada dez passos, mais ou menos, era possível encontrar um confessionário de madeira antiga e pura. E as paredes – aliás, tudo ali – falaram de novo, dessa vez de modo mais audível, mas ainda incompreensível. Quase lá, uma hora eu ia entender que estava perdendo o juízo o que elas falavam. Juro que tentei absorver tudo, até pra depois vir aqui e relatar, mas não consegui, a igreja é grande demais, antiga demais, imponente demais pra ser decifrada numa só visita.

E voltei pra casa – depois de uma looonga caminhada e desventuras em série na Galeria do Rock (tudavê, né), sem sacar qual era a das paredes.

Acreditou, né! RÁ! Cê acha que eu ia fazer você ler até aqui sem dar uma palhinha sobre a história que o prófe contou, lá nos primórdios?

O discurso das paredes só começou a fazer sentido depois de virar a Catedral ao contrário e tocá-la no toca-fitas de um momento de pensação. Partindo do princípio que paredes não falam, só ouvem, então essas da Sé deviam ter algo de especial. E tinham: eram bonitas, antigas, muito trabalhadas e trabalhosas de se fazer. E raras. Por mais que seja fácil encontrar casarões antigos no Centro, nenhum deles deu tanto trabalho quanto a construção da Sé… e olha só pra ela agora. Até hoje, bonitona e inteiraça, fascinante e memorável. Recebeu, claro, uma plástica ali e acolá, mas nada de Extreme Makeover de fato – continua quase do jeito que sempre foi… pois foi bem feita. Bem construída. E sem pressa.

Não, eu não vou terminar esse post com um tom Esopo ou auto-ajuda. Eu não vou falar que a Sé é como uma amizade ou namoro duradouros, uma vez que bem-construídos, sem pressa e com cuidado, podem durar toda a vida; eu não vou fazer qualquer referência a lições de moral. Porque a catedral me contou tudo isso, é claro, mas também me disse muito mais, segredinhos sobre mim e sobre ela, e essas coisas a gente não sai espalhando aos quatro ventos, né verdade?

A Sé é só uma boa e velha senhora cheia de histórias pra contar.
(e esse post tá insano, eu sei. E não era pra sair assim, eu seeei. Mas sabe, curti. :D)

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