A visitante

Setembro 28, 2008

Foi hoje. Ontem ela já tinha batido na porta, mas eu não estava em casa, sabe como é. Aquela encomenda que só chega um dia depois.

Estava sentada no sofá da sala, como quem não quer nada (além de permanecer sentada), quando vejo ela chegar. Capuz longo e preto, cobrindo tudo o que poderia ser um rosto e um corpo; as mãos ossudas, os pés deslizando pelo chão sem realmente tocá-lo, a respiração (?) ofegante… era Ela mesma. Numa saída discreta, arremessei-me para trás da poltrona e saí andando de gatinhas (acho tão fino falar isso), mas ela me segurou pelo pé. Já era.

A Crise me pegou. Justo com a minha meia argo, tão bonitinha.

- Fala, garota. Você aqui outra vez? Tava demorando. Senta. Toma um chá.

- Tô meio sem tempo. Tinha que te fazer uma visita e pronto.

- Mas por que visita? Eu tava tão bem!

- É que é domingo, sabe. É nesse dia que eu trabalho mais. Principalmente lá pras cinco da tarde, é um horror.

- Lógico, tá passando Faustão na TV. Qualquer um entra em Crise.

- Opa, vem com essa! Ninguém entra em mim não. Eu que escolho meus “visitados”. Você, por exemplo.

- Isso é uma proposta? Porque eu não tô exatamente interes…

- Não seja babaca, Cláudia. Não que você possa evitar isso, é claro, mas tente ser menos hoje, ok? Tô com uma dor de cabeça horrorosa. Vou sentar aqui sim. Me vê um…

- … copo d’água? Já vi essa cena. Daqui a pouco vai perguntar se eu sou o Nat Ackerman. [/fim da piada interna de uma pessoa só]

- Na verdade, um pratão de feijão, arroz, salada e bife resolve o meu problema de maneira mais prática, viu? E um guaraná, por favor, só com gelo.

- Não, eu estou em crise, não quero sair do sofá.

- Ainda não. Seja uma menina boazinha e vai lá pegar comida pra mim, vai.

- Só tem miojo.

- Sabor carne?

- Frango.

- Tá, pode ser. Que saco.

- Hm, tá com uma cara boa. Você mesma que fez? Não esperava esses seus dotes culinários.

- Meus dotes culinários não me dão crises, desculpa.

- Sem problemas. Tem um queijinho ralado por aí?

- Tá abusando.

- Opa, Faixa Azul. Meu favorito. Sou alérgica aos outros, sabe.

- Então me diz logo o que você veio fazer aqui, além de me encher.

- Hm… acho que foi bem isso que eu vim fazer, na verdade. Claro que eu usaria outra palavra pra definir, mas a idéia geral é essa mesma.

- Eu achei que você estivesse sem tempo.

- E estava mesmo. Mas oras, todo mundo tem um tempinho extra pra Crise, não tem? O Bush pode esperar. Tenho uma encomenda das boas pra ele, acho que ele vai agradecer por esse tempinho que estou passando com você.

- Tá, e quanto tempinho vai ser, mesmo? Eu tenho que dormir.

- Ah, mas parte da magia se quebra quando as pessoas dormem! E eu não faço trabalho pela metade, meu amor.

- E que tipo de crise que vai ser? Mais psicológica, mais sentimental..?

- Pensei numa saladinha disso tudo, o que você acha? Bem distribuído.

- Não gosto muito de salada, pra ser sincera.

- Então eu uso outra palavra. Tipo “mix”. “Mix” é tão bom, não é? Rima com Twix e me dá boas lembranças.

- Que seja.

- Tá gostando da vida, Cláu?

- Você não é exatamente a melhor pessoa, digo, coisa, pra me perguntar isso.

- As ironias do mundo.

- Eu não tô em crise, você não tá entendendo. Eu sou um poço de felicidade e certeza.

- É mesmo? Você diz, um poço cheio? Cheinho? Transbordante?

- É sim.

- Que bom então. Acho que não tenho mais nada pra fazer aqui, não é isso?

- É…

- Então acho que vou indo. Você abre a janela pra mim? Eu gosto de saídas mais extravagantes, se é que me entende.

- Não, péra, pra que ir agora? Fica aê.

- Por que você quer que eu fique?

- Sei lá, domingos são deprês. E tá passando Fantástico.

- Quer conversar sobre isso?

- Ah, então, é qu… cretina! Você me pegou!

- Eu? Hein?

- Sua… SUA! Eu tava tão bem! Tinha visto Abaixo ao Amor, tinha até sonhado com o Ewan McGregor, sua desgraçada!

- Ai, olha só, deu minha hora. Hihihi.

- Volta aqui, sua desgramenta! Vol…ah, a vida. Ah, o 42. Quem sou eu? VOLTA! Nada mais faz sentido. Qual é a minha verdade? SUA HORROROSA! Ser ou não ser? Matar ou morrer? EU TAVA LENDO MARIAN KEYES, EU NÃO DEVIA ESTAR EM CRISE! Nunca mais passarei fome na vida ou isso é só um idealismo cinematográfico que fica bem nas câmeras? O que é real?

(E o pior de tudo é que ela levou meu miojo de frango. Ou será que ainda dá pra piorar, meu Deus?)

Corri de medo

Setembro 12, 2008

Ai, ok, eu sumi. E digo mais!, não foi por opção. Ou talvez sim. Opção do mundo, ok! [/drama]. Tô trabaiano, estudano e teatrando serelepe como sempre, sim, obrigada, mas no resto do tempo eu quero mais é dormir feliz e contente ou saracotear por Salzburgo com roupas de brincar. Em resumo: fazer tudo aquilo que eu morro de vontade de vir contar no blog depois e acabo esquecendo de relatar. Bacana, néam?

Mas hoje não teve jeito, tive que vir aqui partilhar uma experiência com vocês, da qual vocês podem tirar uma lição muito valiosa tipo “não vale a pena brincar em escadas de incêndio” ou mesmo “meus amigos imaginários não são a melhor companhia sempre”. Tudo firme? Posso contá? Me joguei.

É assim: outro dia acabou a luz lá no trabalho. Era uma quinta-feira e o pessoal já louco pra emendar uma coisa na outra e voltar só mês que vem pro batente, mas tudo certo. ‘Contece que ligaram uns mágicos geradores que não tinham explodido (longa história, depois te conto) pra ativar os elevadores, já que é um baita prédio duns mil andares e não rola do cara no décimo sétimo descer tudo isso pra chegar ao térreo. Bacana? Bacana. Se não fosse o estado dos elevadores, que quando finalmente paravam no seu andar, tavam meio que assim:

Opa com licença estou passando opa licencinha isso obrigado uhu câmeras!

E por alguma razão eu não gosto tanto assim de elevadores cheios, sabe. Imagino na hora todas as pessoas no cubículo puxando a coreografia de “Extravasa” e, sei lá, ainda sou jovem demais pra um Libera e joga tudo pro ar em público. Por essas e outras que resolvi ir de escada.

Mas não qualquer escada, é claro que não. Eu tinha que ir pela escada mais empolgante, tenebrosa e cavernosa de tooodas, a de incêndio! Com portas pesadérrimas que bloqueiam as chamas e tudo. Vai dizer que não é muitophyno sair pela escada de incêndio com as labaredas perseguindo você? Sonho de vida.

Enfim. As meninas do meu andar chegaram a alertar que a escada era meio estranha e tal. Sem problemas, pensei, pois meio estranha soy yo. A escada devia ser, no máximo, excêntrica. Parti pra ela e descobri que, na verdade, era uma escada bem… ok. Portas pesadas demais, luz que acende quando você está passando, mas… bem normalzinha mesmo. Frustrei, até. E saí andando, a bolsa fazendo barulho pela quantidade de chaveiros otakus que eu tenho. Aquela girafa maledeta, não devia ter comprado. Enfim!, estava eu chegando timidamente ao sexto andar (nota: trabalho no nono), quando ouço um barulho que não-é-desse-mundo uns lances acima.

Sério. Podia até ser de Marte, que é pertinho, mas da Terra no way.

Pareciam umas batidas fortes plãs barulhos de passos frenéticos vindo na minha direção. Saca? NA MINHA (M-I-N-H-A) DIREÇÃO.

Gelei, óbvio.

“São eles”, pensei, já imaginando SWATs, helicópteros, terroristas, aliens, tudo que é possível chamar de “Eles” e manter um olhar de preocupação. Me senti no palco e saí disparando pela escada, mais nervosa que Cascão em lava-rápido. E os passos logo atrás, acompanhando. Eu dava uma volta, o barulho seguia. Sério, gente, tou brincando não. E se existisse um maníaco da escada de incêndio, hein? Cêis iam parar pra conferir, puxar um papo, fazer uns barulhos em conjunto, fazer um Olodum ao redor da fogueira sob a luz das estrelas? Voei.

Lá pro segundo andar, já não tinha mais jeito, o barulho ia me alcançar. Tentei voltar à sanidade e limpar as calças e pensar, racionalmente, que uma pessoa normal, comum e não-tarada poderia estar descendo com tanta pressa quanto eu pra ir embora, daí os passos tão plamplamdampampam e reboantes. Mas o barulho continuava e sabe quando cê simplesmente não tá afim de ouvir grilo falante? Zarpei de novo. Fui parar no térreo em três segundos, morta mas viva.

Livre! Liv… AAAAARRRRRRRGHH

Resultado? Gostei tanto dessa experiência Noites do Terror de baixo orçamento psicológica que resolvi ir embora de novo pela escada, hoje. Poisé, gente que não aprende com o primeiro erro… vocês imaginam o resto, né.

Pois bobearam, tá! Não só saí ilesinha de lá como ouvi os barulhos de novo. Sim, sim, ouvi. E eles quase me pegaram dessa vez, mas ainda não rolou. E enquanto não me alcançam, bora gastar as calorias do almoço? Tô adorando essa de entrar em pânico na escada. Faz um bem pra panturrilha!