Sinta quem lê
Agosto 24, 2008
Não dá pra viver uma cena de cinema sem virar personagem.
E de repente não sou eu mais aquela ali, sentada na cadeira. Aqueles pulsos não são meus, nem os trejeitos. Menos ainda a voz, quanto mais o olhar perdido. Aquele jeito de coçar a mão em momentos tensos ficou eternizado como marca do diretor. Marca do diretor…
Você também não é mais você. Aquele riso de canto de boca, o jeito como me olha, seu cabelo: está tudo no roteiro. Nossas paletas de cores combinam de propósito, e as bocas; quantos beijarão do nosso jeito depois desse take? Os ângulos, as marcas no cimento, nossas pequenas brincadeiras. As cores exageradas são de Almodóvar, de Frida Kahlo: não daquele brechó da esquina nem da nossa vida. Virou domínio público, inteligência coletiva.
Sinta quem lê, quem se identifica. E enquanto isso, com licença, que eu quero sentir de novo. Com o tutano do osso, os neurônios e o roteiro em mãos.
(Não, fiquem tranqüilos, nada especial aconteceu. Mas pra quem, mesmo, que eu tô me justificando?)