ãh, ãh, uh!

Junho 14, 2008

Começa no ombro. Direito, geralmente.

Ele levanta. Desce. Levanta de novo. Estranho, involuntário. Tudo muito discreto. As pessoas ao redor nem percebem. Coisa simples de esconder, um casaco mais pesado dá conta do recado.

Mas aí pega o outro ombro, e a coisa começa a ficar mais complicada.

Às vezes sincronizado – um ombro levanta, o outro abaixa. Em casos mais complexos, os dois levantam e caem juntos. Mas ainda é um movimento suave, apesar de estranho: uma colega do escritório explica que o ”tal do ortomolecular” causa reações engraçadas mesmo. Nesse momento, é necessário frisar que ainda há cura. É sério, precisa de cuidados, mas com o tratamento certo, você fica novinho em folha.

Até que as costas começam a reagir. Esquisito. Seus ombros vão pra trás e para os lados sem controle ou esforço. Sabe a “saboneteira” pacífica que você tem, seu tão digno colo? Não se comportam mais. Os primeiros sinais de perigo em relação a pescoço e braços costumam aparecer nessa fase.

Você sabe que seu pescoço foi contaminado quando ele simplesmente começa a “seguir” sua saboneteira. Faz movimentos estranhos, desloca-se para o lado com o mesmo ritmo dos ombros. Pra cabeça começar a se comportar de modo estranho, é questão de minutos. Ela vai virar para os lados sem a menor necessidade; vai se jogar pra cima, mostrar queixos e narizes sob ângulos jamais imaginados pelo homem. Se você tem papo, o cuidado deve ser redobrado.

Mas os piores casos – aqueles que não têm cura,  – são facilmente identificáveis, pois já atingiram, a essa altura, os braços, que se movimentam de todas as maneiras. Podem esticar-se para cima e para os lados, ou dobrarem-se na altura do cotovelo, possibilitando movimentos de variedade infinita. Por vezes erguem-se até se encontrarem no alto da cabeça – as mãos já não funcionam como deveriam – e giram, sentido horário ou anti-horário, os punhos fechados. Já foram detectados casos em que o paciente, ainda de punhos cerrados e unidos lado a lado , desce os braços até a altura dos pulmões e desenha, no ar, um círculo imaginário à sua frente, como se cozinhasse em um caldeirão. Uma vez contaminados os braços e mãos, os movimentos do paciente se tornam ilimitados.

 

Pacientes lidam com sua enfermidade ao sol

Existem alguns sintomas mais: batida ritmada com as duas mãos, ao que chamamos de “palmas”; estalidos produzidos com as pontas dos dedos unidas, assobios, maleabilidade excessiva na área da cintura, entre outros.

Nessa conjuntura, a cura dificilmente é cogitada. O paciente costuma dar preferência a reconhecer-se como doente e aprende, de certa forma, a conviver com sua enfermidade. Os contaminados podem viver em comunidades e, nesse caso, reconhecem como líder aquele que possuir maior maleabilidade, geralmente o mais antigo do grupo.

 

- Gritem comigo: somos saudáveis, só muito maleáveis!

Cuidado. O germe Discotecus horribilis está sempre à solta e pode contaminá-lo quando você menos esperar. Aquela festinha inocente é um antro de reprodução do germe. Mas talvez valha a pena sentir os sintomas, vez em quando, ocasionados ou não por auxiliar alcóolico.

Atenção: em caso de perda parcial ou total de melanina, suspenda os medicamentos e  procure seu orgulho médico.