Poxa, fiquei toda-toda com a repercussão do post de ontem (sem preguiça se você num leu, só descer a barra de rolagem, tsá), que acabei pensando nele mais do que devia.

E cheguei a uma conclusão nova, raciocinem comigo. Ok, nós, pobres mortais que provemos de placentas e não de scripts, temos essa invejinha saudável da personagem, querendo sofrer, amar, coisar como ela, sendo destinados ao puro relento, jamais seremos felizes, enquanto as personas podem sair pimpãs com seus finais felizes. Certo? Erradzo. Porque é uma mão de duas vias. Aposto que as personagens também têm essa aflição, esse quero-ser-normal.

Ana Bolena não pode reclamar das bolhas no pé que o sapato 35 lhe causou. Edward Bloom, tadinho, é lindo até perder de vista, mas não pode ter alergia a flores. Alex DeLarge teve que ensaiar mil vezes os rodopios com a bengala – se fosse espontâneo, podia quebrar o vaso de alguém. Personagens têm os grandes amores da vida, a quem devem tudo – quedê emoção, minha gente, de pegação nabalada, sem compromisso (e sem virar Closer), ou ignorar o ser amado até ter coragem de falar com ele?! Até Carrie Bradshaw tem seu happy ending.

 

- Querido, você tem uma sujeirinha no nariz. Lenço?

 

O doce this-is-Sparta! Leônidas não pode ter uma dor de barriga antes da guerra; até a Clementine, livre até a raiz dos cabelos, tem limitações da personagem. E se por algum acaso elas têm emoções cotidianas em seu roteiro – fazer coleções, tomar banho (!), dormir -, tudo tem que ter um significado, serve pra “acentuar” a personagem. Um cara não pode gostar muito de matemática sem ser esquisofrênico. Não pode ter tiques na mão sem ser assassino. Coisa medonha!

Pois eu tenho tiques na mão, adoro fazer coleções, tenho minhas manias de limpeza e dores de barriga. Adoro ouvir uma música milhões de vezes, sem ter que encarar o infinito ou a chuva, pensando no meu amado. Ouvir Mr. Brightside não quer dizer que eu sou otimista e sofri por amor, quer dizer que eu gosto de Mr. Brightside. E se já vivi momentos de cinema, deles posso me lembrar com amor, mas distanciamento. Não tenho príncipes nem países por quem me mataria.

Mas também sou feliz. Assim, sem arroubos, mil flores no meu jardim. Uma só já é bem-vinda. Rir com os amigos sem câmeras ao lado só as do Show de Cásper me parece muito bom.

E tenho a vida toda pra criar meu próprio roteiro, com os antagonistas e turning points que eu quiser.