Sobre a inveja
Maio 19, 2008
Um dos meus queridos professores de teatro – em suma, uma pessoa muito mais esperta que eu – disse, na sua última *snif* aula, que a platéia inveja um pouco o ator. Calma, isso não tem nada a ver com aquela tia véia da novela que agarra o Gianechinni, não, se bem que ela é uma desgraçada mesmo.
A inveja que a gente sente tá mais relacionada àquele drama tão terrível que envolve a personagem; ele sofre tanto – ou se diverte tanto, ou engasga tanto, ou morre tão bem, enfim! – que a gente se pergunta: mas ué, por que eu não tenho nenhum drama terrível na minha vida? Por que eu não mateimeupaicomiminhamãe enfrento dualidades terríveis, só filas de banco? Por que meu amor não é tão grande quanto o dela? Eu queria sofrer assim, amar assim, ser feliz pra sempre desse jeito. É quase uma criança na frente de uma loja de brinquedos, vendo mil pimpolhos saírem com grandes embrulhos, enquanto ela tem que se satisfazer só com a vitrine.
Senti muito isso saindo de “Senhora dos Afogados”, em cartaz no SESC Consolação. A culpa de Moema – e daí que vocês não viram?, cêis vão me entender u_u - é tão grande, tão… quente e raivosa, que dá pra sentir lá da fileira I, lugar 19. Dá gosto de ver. Ela é impassível e ao mesmo tempo, passional. Uma doida varrida cheia de estilo.
Eu tenho inveja das mãos tremulantes da Moema e da loucura sorridente do Misael; tenho inveja dos tiques nas mãos da Dona Eduarda e da Moema, limpando sangues invisíveis; tenho inveja da frieza da senhora dos afogados, que manda inocentes pro mar. Tenho inveja da pureza do Paulo, perdida quando ele veste preto, mas não é muleque. Tenho inveja da promessa da Moema, que é cumprida e branca. Tenho inveja do claro e do escuro, da loucura, da vingança, das mortes em comum e de pactos absurdos. E do mar maravilhoso, senhor de destinos e tirem a Suzana Vieira da cabeça JÁ!, das sandálias de espuma, da magia de Nelson.
É bom e eu tenho inveja, tenho inveja e é bom. Mato-e-morro de inveja e amo.